O tanso e o cronista [Tiago Maria]

Posted on 14/12/2017

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É sábado. Fumando um cigarrinho black de cravo com menta, o cronista finge não estar trabalhando, sob a proteção das barraquinhas no brique da redenção, que aguardam sonolentas cada uma sua vez de ser desmontada. A chuva condenou o brique no domingo. O cronista salvou o tanso de perder o amor da sua vida.

Não fossem os cronistas, aposto que diariamente um tanso perderia o amor da sua vida.

O tanso já saiu de casa atrasado. Mas é bem tanso. Deposita a última chance de recuperar o amor da sua vida naqueles garranchos deitados num papelzinho azulado que carrega às costas, dentro da sacolinha de papelão mais brega do mundo.

O cronista nunca se atrasa. Lida com o texto enquanto tempo. E o tempo não usa relógio. Nem se perde a si mesmo com os tansos.

O tanso não sabe, nem percebe, que o papelão mais brega do mundo esfarela-se com a chuva fininha que vai roendo o fundo da sacola pelas beiradas. Seca as lentes dos óculos com a mesma mão que segura uma sombrinha floral. Deixa cair a sombrinha. Caem os óculos. Por pouco não tomba ele mesmo, o tanso, na poça d’água.

O cronista sabe, percebeu que o tanso deixara cair o papelzinho com aqueles garranchos que, agora, encharcados de chuva mais que de lágrimas, eram só um borrão de arame farpado.

Tanso, mas tanso, mesmo, dos bão, sai de calça branca em dia de chuva. Esse ainda calçava sandálias. Um tanso profissional. Segura firme, confiante, sobre o ombro direto, apenas as alças do que já fora uma sacolinha de papelão mais brega do mundo. Nem percebe o cronista.

“Ô, Tanso”, disse o cronista, “ali, na poça d´água, deixaste cair tua última chance.”.

“Bããã”, disse o tanso, “agora me fu…”.

E é aí que entra em ação o cronista. Ouve o tanso com atenção de cronista. Aconselha que jogue fora a sombrinha floral. Escancara a boca pro céu e mostra ao tanso como se deixa que a chuva nos enxágue os escuros da alma. Garante o cronista não existir amor da vida que resista a uma alma lavada.

O tanso agradece com cara de quem não entendeu muito bem. Deixa a sombrinha e segue com seu passo de tanso. O cronista contempla de longe. Vez que outra ele para, joga o pescoço pra trás, abre os braços, cerra os olhos e fecha a boca. Mas é muito tanso, mesmo.

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E com vocês, por mais incrível que pareça, Tiago Maria, brasileiro, cansado, 37 anos, cardioinsistente. Profissão: esperança.

Idealizador da Oficina Litehilária Crônicas de Graça. Participou das antologias Santa Sede Crônicas de Botequim safra 2013, Cobras na Cabeça crônicas (ir)reverentes e Maria Volta ao Bar. Premiado na maratona de escrita criativa, promovida pelo Instituto Estadual do Livro (IEL), durante a 62ª feira do livro de Porto Alegre. Publica toda terça no blog tiagomaria.wordpress. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras

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