Miniestórias [Carlos Castelo]

Posted on 30/09/2017

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ASSINATURA

– Boa tarde, nós notamos que o senhor cancelou a assinatura do seu jornal diário. Procede?
– Procede.
– O senhor não quer mais receber o seu jornal diário?
– Não.
– Mas o senhor está conosco desde 2001. Vai deixar de nos receber assim?
– Vou.
– O senhor sabe que pode ler o seu jornal diário no smartphone e tablet, não?
– Sei.
– E mesmo assim o senhor quer cancelar a sua assinatura do jornal diário?
– Quero.
– E se, de 29,90 mensais, nós baixássemos o valor de sua assinatura para apenas 10,90 por três meses? O senhor ficaria conosco?
– Não.
– E se, além desse excelente desconto, nós lhe dermos uma assinatura online grátis? O senhor mudaria de ideia?
– Não.
– Então o senhor poderia nos dizer a razão de todas as suas negativas às nossas tentativas de mantê-lo como nosso assinante preferencial-premium?
– A senhora quer saber mesmo?
– Sim, senhor, por favor.
– É que estou me aliviando com o celular no banheiro e a senhora ligou. Fica difícil tomar decisões agora.
– Perdão, o senhor estaria o quê?
– M-E A-L-I-V-I-A-N-D-O.
– Ah, entendo, senhor. Independente disso, gostaria de cancelar a sua assinatura do jornal diário?
– Sim.
– E se eu lhe der seis meses de isenção total de pagamentos, o senhor assinaria novamente?
– Nem cagando, filha, nem cagando.

BOLO DE CHOCOLATE

– Por favor, uma fatia de bolo de chocolate…
– Pediu bem. Acabou de sair um delicioso!
– É mesmo? Que bom…
– Feito de óleo de coco, cânhamo, urtigas, repolho fermentado, soja, quinoa, castanha de caju, leite de coco, xarope de arroz integral, vinagre de maçã-cidra sem filtro, sementes de chia e abacate.
– Mas e o chocolate?
– Vai raladinho na beirada do prato. Orgânico, tá?

QUANDO PORRA É VÍRGULA

“Essa violência no Rio, porra, é a prova de que estamos numa crise da porra.

E isso, porra, desde muito tempo. Se fizermos um cálculo rápido, logo veremos que são porrilhões de décadas. Porrilhões de décadas que a porra dessa triste condição se mantém viva. E aí eu pergunto a vocês. Porra, por que nós estamos aqui no Rio? Por que, porra?

É claro: porque a gente ama essa porra.

E nós vamos manter a porra dessa cidade limpa custe o que custar. Nenhum porra vai estragar a nossa festa. Se vierem pra cima da porra, a gente vai pra cima dos porras.

Então, na qualidade de prefeito dessa porra, declaro: vamos pra cima, milicos! Poooorra!”

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve semanalmente aos sábados. 

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Posted in: Crônicas