De internet, Kariêninas e Bovarys [Raul Drewnick]

Posted on 13/08/2017

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Pelo que vejo na internet, os maridos não servem para nada mais importante do que discutir a relação.

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Basta que a literatura dê um cochilo e lá vai a vida furtar-lhe uma história. Tantas Kariêninas e Bovarys que seriam perfeitas se não lhes faltasse um toque de Tolstói ou Flaubert…

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Numa pasta de recortes de jornal e num exíguo arquivo no micro cabe toda a minha fortuna crítica.

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É comum, quando choramos, dizerem que parecemos crianças. Pode haver melhor incentivo para nossas lágrimas?

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Os livros espalham o ouro esmaecido de seu outono pelas estantes escuras do sebo.

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A partir da segunda vez, e da terceira, o amor nunca mais é como na primeira.

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Não posso me queixar. Sempre tive uma espécie de ignorância intuitiva.

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Fontes fidedignas nem sempre são as que constam nos rótulos das águas minerais.

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Houve um tempo em que imaginei que a poesia havia me escolhido para alguma coisa grandiosa – justo a mim, com estes modos de polonês tosco.

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Diante do amor, toda cautela é pouca e inútil.

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Um poeta romântico que não tenha morrido pelo menos duas vezes por amor não merece confiança.

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O amor faz aquela figuração toda no trapézio, com sua roupa cintilante, e, quando começamos a gostar dele, espatifa a cara no picadeiro, como um palhaço qualquer.

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E no entanto acabamos sempre voltando a escrever.

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Para evitar ridicularias, os poetas românticos deveriam receber licença de acordo com sua idade, sendo a faixa inicial quinze anos, e a última trinta e cinco.

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Palavras como rosa, mar e primavera deveriam ser sempre ouvidas como se ditas a primeira vez por lábios maravilhados pelo assombro.

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Ao haicai assentam bem a humildade e a modéstia. Ele não é um passarinho se exibindo, aparecendo e desaparecendo no mesmo instante, com um fio de ouro no bico. Ele é só um passarinho que aos olhos certos, em certo instante, pareça ter um fio qualquer no bico.

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Enquanto o poeta romântico prepara um cisne para o jantar, o concretista ronca e sonha com pirâmides e com egitos.

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Se tratamos de graça e beleza, contra gatos não há argumentos.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas