Vestida de tristeza [Elyandria Silva]

Posted on 08/08/2017

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A bengala a apoiava, sustentava a grande massa de peso que constituía o corpo, agora já desgastado pelo tempo. Duas senhoritas sorridentes, com sapatilhas lustrosas, uma de cada lado, cada uma segurando um braço. Houve um encontro com outras mulheres, beijos, cumprimentos, coincidências de um típico domingo de eleição. A senhora ali, no meio de tudo, parecia não querer mais nada, estava vestida de tristeza para exercer a cidadania justa àqueles que já viram de tudo nessa vida. Grandes óculos praticamente ocultavam os olhos fixos num ponto da grande sala. Fácil deduzir que ela apresentava poucas certezas e duvidava das esperanças que estavam sendo depositadas naquelas urnas de murmúrios infantis.

O mesário anunciou meu nome, podia votar, ganhei um circunflexo de brinde onde nunca existiu.

É ali, naqueles segundos em que os dedos encontram as teclas para reconhecerem os números decorados, que temos a expressa sensação de que tudo vai mudar, de que uma nova era começa e seremos habitantes felizes e sortudos de primeiros mundos sonhados, de realidades invejadas de outros continentes. Na tela, a foto do candidato sorridente  parecia querer abrir os braços e me agradecer pelo voto.

Avanço em direção à saída com os documentos, a sala é grande e caminho devagar. Lá fora um cão agitado com a língua de fora tenta encontrar um candidato disposto a brincar, um candidato isento de partido político, de siglas patriotas, apenas um ser humano que possa lhe fazer um carinho naquele momento. Dá voltas rápidas abanando o rabo, mas todos passam e o ignoram. Sua cor? Bege. De repente, lembro-me dos animais abandonados à própria sorte e dos que sofrem maus tratos e as dores do mundo me invadem abruptamente, assim, como tempestade que chega sem avisar.

Passo pelo grupo, as acompanhantes que amparam a senhora da bengala não paravam de sorrir. Desconfio de gente que ri o tempo todo, tem certo incômodo nessa atitude, uma harmonia ordinária. Olhamos-nos por breves segundos, eu e a senhora. Quantos? Três segundos, suponho. Secretamente, desejei que seus delírios desassossegados fossem realizados. A juventude e a beleza perdidas de volta, a mobilidade do corpo, a vida pulsante, as loucuras da liberdade. Poderia lhe dar um pouco de minha solidão, só que isso é o tipo de coisa que não se dá, nem se empresta, cada um deve ter a sua, aprendi faz tempo. Não quis pegar emprestada sua roupa de tristeza, penso ter vocação de palhaço alegre. Queria fazer um carinho no cão, ele está longe, disputa outras atenções, é agitado, feliz em sua humildade de bicho.

Já na rua piso em rostos com seus respectivos números, legendas que na segunda-feira sairão de cena. Dou uma última olhada para trás e já sinto saudade do cão carente.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas