As ausências de Natália Sartor de Moraes

Posted on 07/08/2017

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“O cronista sabe de quem fala, mas, acima de tudo, sente sobre o que escreve”. A frase é de Natália Sartor de Moraes, escritora catarinense que segue a boa tendência da crônica em tentar desvendar os dramas e a realidade de personagens comuns observados na rua. São homens, mulheres, velhos, moços, abastados, mendigos, pessoas que ela procura, mais do que observar, absorver.

Ela se esforça para ultrapassar as camadas superficiais e chegar ao que é essencial no ser humano: “O êxtase mesmo está em observar os personagens reais e saber que eles têm mais força e autenticidade que fantasia e fascinação”. Essa espiã de oportunidades, na sua íntima condição de nômade, atrasa o passo, desvia o olhar, se esconde atrás do poste, mas não deixa passar a chance de conhecer uma história. Sua grande preocupação são as pessoas. Até porque, “no instante em que a preocupação é direcionada às coisas e não às pessoas, é o fim”.

E se houvesse uma única palavra para descrever as personagens que Natália encontra teria de ser, fatalmente, “ausência”. Todos estão crivados de ausências mal-curadas, vivem existências de intermináveis ruminações e expõem vulnerabilidades, incongruências e incompreensões. São pessoas que tiveram sonhos roubados, a esperança sequestrada, o amor arrancado. São os afastados do palco dos normais, às vezes tocados por uma súbita ternura que deixa as lágrimas escaparem. Natália tenta desvendá-los, não pelo insólito dos seus dramas, mas porque, de certa forma, aqueles dramas também são os seus, ela se identifica e sente aquilo que observa.

As razões últimas desse processo de aprendizagem do Outro são insinuadas no trecho de uma das crônicas desse seu livro de estreia, “A outra beleza” (Metamorfose, 2016): “Desconfio que somos todos receptáculos de ausências repetidas, ansiando por uma oportunidade de reencontro, de compreensão… um episódio em que possamos partilhar o pão e a alma”. De maneira que as histórias que ela colhe são um esforço na direção da comunhão, de si para os outros e de si para o mundo, única maneira possível de ansiar por uma paz de si para si.

“As histórias que ela colhe são um esforço na direção da comunhão, de si para os outros e de si para o mundo, única maneira possível de ansiar por uma paz de si para si”. 

Mas para que esse processo de integração funcione, há uma condição que deve ser observada: a busca pela verdade. É por isso que Natália se sente ofendida pelas imposições mascaradas da democracia, o traje dos falsos, a túnica dos covardes, a indumentária dos hipócritas. Ela quer o conhecimento que estava ali, adormecido pelas opiniões baseadas em preconceitos e valores mesquinhos. E, à medida que eterniza, eleva e enfatiza personagens, tudo conduz a um aprendizado sobre a nossa alma. Mesmo que a cronista seja uma herdeira das indecisões, uma modesta construtora de assombros e desassombros, uma admiradora do indecifrável…

Talvez a verdade a ser encontrada não seja das mais agradáveis, mas ela ainda está disposta a procurá-la: “Que chegue a experiência e venham as decepções, que as lágrimas rompam a barreira da hipocrisia e a superfície se quebre. Sejamos límpidos e verdadeiros. Que a cara seja lavada e o ouro sepultado. Sejamos quem nunca deveríamos deixar de ter sido”. Às vezes, ela diz, descobrir é amargura, arrefecer, é o fim de uma etapa e o começo de outra, nem sempre feliz, porém, real.

E apesar das especulações existenciais, apesar do fato de que em suas crônicas até mesmo os passarinhos, tão típicos da crônica, estão mortos, Natália não se atém ao sofrimento das vidas que observa. Há um renitente otimismo, nem sempre tão explícito quanto neste outro trecho: “Busco gritar indelevelmente não a tragédia, mas nossa capacidade indiscutível de superá-la”. E o faz de maneira bem trabalhada, em textos que passam por muitas revisões, e às vezes até ensaiam versos – pois ela também é uma poeta.

Ainda dá para acreditar em nós, afinal. Ainda há alguma coisa que pode nos tornar mais próximos. Já há até o que comemorar, pois com esse livro conseguimos também sentir um pouco daquilo que os outros sentem. Não tenhamos tanto medo, pois, de confessar as nossas próprias ausências.

Henrique Fendrich

A outra beleza – Natália Sartor de Moraes
Editora Metamorfose, 2016, 130 p., R$ 35

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Posted in: Resenhas