Ponto de referência [Rubem Penz]

Posted on 04/08/2017

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Longe ou perto? Alto ou baixo, fundo ou raso, frio ou quente, bom ou ruim, fácil ou difícil, simples ou complicado? Passaria um parágrafo inteiro (ou mais) elencando possibilidades em princípio opostas, todas elas úteis para enaltecer um só parâmetro capaz de relativizá-las: o ponto de referência. Até hoje, as pessoas mais brilhantes que conheço escapam de tais questões com o bom e velho “depende”.

Ela é rica? Depende: se comparada a quem? Se medimos fortuna com qual bem? Aliás, com bens? E se for só dinheiro, considerar qual ponto de referência: um mendigo ou um xeique árabe? Com parâmetros variados teremos respostas distintas.

Ele é feliz? Depende. Nossa, e como! Felicidade talvez seja o conceito mais complicado do mundo pois, para cada um e para todos, os motivos serão diferentes. Há quem esteja feliz simplesmente por acordar sem dor, outros precisam sexo, outros um café. Já sei: parece uma boa receita unir os três, né? Ou não, depende.

Eles são poderosos? Sim e não. Todo poder é relativo. Aliás, é uma força nascida justamente das relações. E o encanto da vida pode surgir justamente da alternância de poder. Filosofando com bolsos rotos, diria que mandar em tudo o tempo inteiro tende a desembocar numa auto escravidão.

A ponte é forte? Ora, para qual bastante? Pode ser, sim, desde que não suba nela 30 tanques de guerra. Porém, aprendemos que bastará um batalhão de delgados homens marchar num determinado ritmo para ruir o mais firme piso suspenso. Aqui cabe um reticente agradecimento: toda vez que cruzo por uma ponte faço louvor aos engenheiros!

Ela é a mais bonita? Ele é o mais bonito? Hoje, sim. Amanhã, não. Seria desprezada a mulher magérrima no século 19, por exemplo. Homens com barbas longas, por outro lado, parecem ter sido reciclados deste período histórico depois de anos de faces lisas. O quanto também pode ser uma questão de quando…

Com variados pontos de referência, euzinho mesmo posso ser considerado até gordo (certo, serão casos especialíssimos). Portanto, sejamos mais esperançosos com as coisas da vida. Os pessimistas são pródigos em confrontar a realidade pelo viés que lhes convém e acabar com o nosso dia. Mas, reitero, tudo sempre dependerá do ponto de vista. E se até mesmo nossas maiores alegrias podem ser relativizadas, por que não fazer isso com as mágoas?

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas