Tristezas e alguma inadvertida alegria [Raul Drewnick]

Posted on 30/07/2017

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Não sou um desses tristes oportunistas, de ocasião. Sou triste por convicção.

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Segui o conselho de Sócrates. Hoje me conheço melhor que ontem. Ontem eu era mais feliz.

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Teu nome não precisas me dizer, conheço tantos nomes de rainha. Deixa que o teu seja uma escolha minha e pune-me se errado eu escolher.

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A desculpa que costumava dar era a de que, se fosse dedicar-se à vida, não lhe sobraria tempo para ser poeta.

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Mesmo no último dia, talvez você se mantenha presunçoso. Se soar ao longe um violino, quem pode garantir que você não imaginará ser uma homenagem?

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A melhor tristeza é aquela que aprecia ouvir Chopin na penumbra.

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A tristeza demora um pouco para confiar em nós.

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Para resumir rimadamente, os provérbios costumam ser mais  paulificantes que edificantes.

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 Oitiva e falcatrua são dois pássaros que andam voando juntos por aqui. Ah, e propina.

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Embora se diga que não, dos poetas e dos mágicos se esperam sempre os mesmos pássaros e as mesmas cartolas.

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Se houver desperdício de beijos, suspenderemos o fornecimento.

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Enquanto houver um gato, estará justificada a existência de pelo menos um sofá.

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Não há nada mais cafona e lírico do que um realejo na esquina reproduzindo “Fascinação”.

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Os bons poetas têm acesso às flores e aos pássaros. Os maus poetas também.

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Achar que o haicai é uma espécie de quadrinha de três versos é uma atroz simplificação.

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Os momentos certos estão sempre no lugar errado.

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Todo poema concreto deveria vir com um manual de instruções e cinco anos de garantia.

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A literatura é um vício que talvez um dia qualquer homem possa admitir na hora mais clara de uma manhã de domingo.

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A chave de ouro de um poema concreto é o habite-se.

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Não tenho visto mais por aí aquelas pequenas lojas especializadas em reparos de poemas concretos.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

 

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Posted in: Crônicas