Tubarão Ex Machina [Daniel Russell Ribas]

Posted on 24/07/2017

4



Tudo que é bom engorda, li por aí. O que é ruim também, ouvi certa vez. Acho que podemos concordar que nada é absoluto. Somente uma questão de gosto. Descobri isso após uma indicação desastrada aos 13 anos. Bom, cabe um desvio para a alameda da memória aqui: sempre fui cinéfilo. Cresci vendo filmes, o que me deu uma cultura precoce. Enquanto a garotada falava do último blockbuster de ação, eu também comentava sobre David Lynch. Ninguém entendia ao que me referia (em se tratando do Lynch, não entendem até hoje…). Entretanto, meus professores se mantinham curiosos. Em particular, a de Português, Dona Fátima. Os anos neblinam muita partes, ao mesmo tempo em que preservam algumas. Como o episódio a que aludi.

Dona Fátima, por razões que a razão ignora, me pediu uma sugestão. Já mencionei que era igualmente influenciado por objetos pop ou artísticos. Naquela época, não fazia a distinção. Era somente o meu gosto. Logo, com muito entusiasmo, recomendei “Fuga de Los Angeles”, uma fita de aventura situada em uma distopia. Quando perguntei o que ela tinha achado… “Parei logo no começo, Dã, achei um lixo.” Uma janela “Error 404” que brotou em minha mente. Posteriormente, entendi. Um filme B (em maiúsculo mesmo) não é a mesma coisa que uma obra com pretensões eruditas. Adolescente é burro mesmo. Deveria ter indicado “Taxi Driver”…

Os anos passaram e minha paixão por desventuras trash e relativa burrice permaneceram. Ainda troco os pés pelas mãos em situações de resolução fácil. E aqueles momentos em que gosma jorra de personagens após o ataque de um monstro obviamente falso ainda põem um sorriso em meus lábios enrugados. Nossa educação tende a moldar o paladar. Existe um valor que não pode ser ignorado tanto nos melhores vinhos quanto em um eventual fast food. Alguns admitem, outros não entendem, mas o prazer culpado compõem a pessoa como a sofisticação. Em ambos, se não houver uma busca por descoberta, de agregação, será uma iniciativa fútil, motivada por vaidade ou preguiça. O novo está na esquina, como naquele carrinho de churrasgato ou no vegetariano cuja equipe parece ter saído de uma exposição de arte contemporânea.

Remeto o aforismo rodrigueano: “Jovens, envelheçam!” Interpreto essa sentença como um chamado à depuração. Logo, acrescento: Jovens de todas as idades, saíam desta idade média da evolução humana, sacudam essa poeira confortável e aventurem-se! Especializar-se deve ser uma forma de reler o material, não apenas pisotear o mesmo terreno com sapatos novos. E se deixar carregar pela saída suspeita por ser o portal para uma nova visão. As possibilidades de verdade são infinitas quando abrimos mãos das nossas próprias, mas mantendo nosso princípio.

Acho que era isso que Dona Fátima via em mim, um moleque espinhento que absorvia referências literárias com sede. Eu a agradeço (e a culpo) imensamente. Gosto nunca deve entrar em questão. Outro dia, mostrei para um amigo um clipe de “O último tubarão”, uma cópia muito descarada do clássico de Spielberg, realizada com o orçamento de um lanche podrão na Lapa. “Tá vendo o tubarão mecânico? Esse é o único movimento que ele faz, para cima e para baixo d’água. O resto são gravações que não batem e miniaturas!” Embasbacado, ele encara aquilo: “Dá quase para ouvir as engrenagens dele funcionando. Isso é tão tosco… Cara, muito bom, vou procurar!” Tudo tem um público.

__________

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas