Uma mixórdia e tanto [Raul Drewnick]

Posted on 16/07/2017

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À meia-noite, a prosa poética e a poesia prosaica se esmeram na maquilagem, acolchoam os peitos flácidos e vão seduzir jovens tolos nos bares.

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A poesia dava status aos que a faziam, no tempo em que a faziam.

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Penso às vezes como é estranho alguém dizer que vive para escrever ou para dedicar-se a alguma forma de arte. E às vezes penso como é estranho haver quem não viva para isso.

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Lembro-me de que me aconselharam a ser paciente e esperar que amadurecessem meus frutos literários. Hoje eles já nascem podres.

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Suicida que ladra não morre.

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Ele sente engulhos não quando pensa no amor, mas sempre que se lembra dos poemas que fez para celebrá-lo.

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Emoldurou a licença poética e a pendurou na sala.

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Para alguns, a literatura é mais importante que a vida. Para outros, não. Para eles, a literatura é a própria vida.

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Minha melancolia tem me preocupado. Anda apática, arredia, cabisbaixa. Às vezes preciso estimulá-la com boleros da década de 1960.

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Os modernismos são novas formas de mexer em gavetas velhas.

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Se Mario Quintana e a poesia tinham um pacto, era desses que se acertam com um olhar e um sorriso.

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Os poetas românticos eram gananciosos. Cada um deles queria ser proprietário de toda a tristeza do mundo.

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A frieza nela não era um defeito, uma frase de efeito. Era uma convicção.

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A minha parte eu fiz. Seria melhor Dante se você fosse Beatriz.

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O que os poetas românticos melhor sabiam fazer era chorar e morrer.

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A revisão de um poema concretista chama-se reforma e exige a assinatura de um engenheiro e licença da prefeitura.

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O amor tem duas faces e uma terceira, pior que a segunda e a primeira.

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Na noite em que foi buscá-lo, a Morte surpreendeu-se: “Você é a cara do Drummond. São parentes? Nem por parte da Poesia?”

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Parece-lhe inadequada a expressão esticar as canelas como metáfora da morte. Preocupa-se, quase se aflige. Receia não conseguir, quando chegar sua hora.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas