A incrivel epopeia de um erro [Mariana Ianelli]

Posted on 15/07/2017

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Começou singelo, fácil de ser reparado, no meio de um esboço. Não planejava peregrinar por aí sem ser visto, ao contrário: exibia-se bem na cara da escritora. Um erro gordo, de concordância, sem margem para ambiguidades. E assim mesmo, grande, gordo, passou de um esboço à página de uma revista sem ser barrado. Não imaginava chegar assim tão longe. Se alguém reparou nele, ficou calado. Ao menos ninguém acudiu a escritora. Como quem não quer nada, foi em frente. Migrou da página de uma revista para um arquivo de textos selecionados. Era inacreditável que ainda estivesse ali. Veio a primeira temporada de caça. Viu outros erros bem menores que ele serem apanhados. Viu os camuflados serem descobertos, os selvagens agarrados pelo rabo. E ele ali, onde sempre esteve, nítido, explícito, desde a primeira frase em letra apressada, mas, por algum fantástico efeito, invisível, agora dentro do corpo de um livro prestes a ser publicado. Veio a segunda temporada de caça. Viu outros erros minúsculos serem cortados, vírgulas, aspas, aberturas de parágrafo. A essa altura da jornada começou a perder sua inocência brincalhona, foi se incorporando à paisagem do texto num lapso incontornável. Veio a revisão final. Nada, ninguém o viu. Era um erro bruxo. Feito praga, na boca da máquina, eram mil deles agora em letra impressa. Mil deles prontos para se infiltrar em bibliotecas onde jamais entrariam como convidados. A escritora o descobre, afinal. Num delírio quixotesco, cogita lutar contra a nuvem de gafanhotos. Primeiro cogita um disfarce, depois uma errata. A escritora se rende, afinal. Era filho dela, filho da sua cegueira e de mãos afobadas, um lapso que se valeu de ter sido ignorado para ir ultrapassando fronteiras, ganhando inesperadas dimensões. Era mesmo um feito. Um sucesso do inconsciente. A incrível epopeia de um erro saído da sombra de um vão. Mesmo nítido, explícito, talvez ainda passe despercebido por muitos olhos. Para quem o notar, na penúltima página de um livro, a autora manda dizer que sabe do inconveniente desordeiro, aprendeu a conviver com ele até o limite da humildade, conhece de cabo a rabo essa epopeia, pode descrever aqui sua trajetória.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas