À espera [Madô Martins]

Posted on 14/07/2017

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Não há terapia que dê jeito: detesto esperar, seja lá o que for. O namorado que se atrasa, o e-mail de resposta, notícias do neto, o livro no prelo… Impotente diante do ritmo da vida, tenho insônia, engasgos noturnos, palpitação, o fígado reclama, a cabeça dói, o resfriado ataca. Acontece há quase 70 anos, e ainda estranho. Ocorreu uma pequena melhora, com a meditação e o tai-chi-chuan, que tornam mais íntimos os laços com a natureza e cultivam a paciência, sinônimo de calma e tolerância, que sempre invejei dos orientais.

Mas os fatos atropelam minhas boas intenções, e a crise de ansiedade volta sem misericórdia. As palavras tornam-se ásperas, os gestos se aceleram, o olhar perde o foco. E quero dar corda no mundo, para que acompanhe minha urgência. Quando recupero a lucidez, o estrago já está feito, afastando amores e amizades. Algumas vezes, até as louças se quebram, escapando-me das mãos apressadas.

Felizmente, os que me cercam não sofrem do mesmo mal. São benevolentes, sempre tiram do bolso do coração uma nova chance, percebendo que, por baixo de tanta insensatez, há uma menina insegura e assustada, a  quem não ensinaram como ler a cartilha do amor.

Amor que busco todo o tempo, nas frases e atitudes mais banais, nas adivinhações e segredos que me torturam, nos erros que cometo sem querer, nos julgamentos alheios. Mas, nem tudo é naufrágio. Há períodos de calmaria, em que experimento a paz e nada me preocupa. A alma se espreguiça, os olhos flanam pela paisagem, o sono é tranquilo e reparador.

Momentos bem-vindos, que me reconciliam comigo mesma, mandam a menina para a escola, trazem à tona a adulta segura, lúcida e cordial que quero ser. Pelo menos, até a próxima temporada de espera…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas