Cena de areia [Elyandria Silva]

Posted on 11/07/2017

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Negro bonito chamuscado com areia branca. A canela magra. O joelho ossudo. Os dedos finos que voltavam a ser pretos em segundos, depois que a areia quente escorria para sua casa. A casa da areia é dentro dela mesma, mesmo que o mar tente invadir a cada segundo. Assim deveria de ser com todos: que cada um morasse dentro de si mesmo.

Avancei caminhando e avistei o menino negro de longe. Vários caminhavam rumo às pedras que esculpiam a paisagem no final da praia. Uma nuvem grande ameaçava o mar num desenho de malvadeza. A criança desenhada de beleza a milhares de quilômetros de distância do preconceito. Foi batizado de Wellington, respondeu de dentro do fio fino de areia que escorria no ar.  E o irmão mais novo ao seu lado, pequeno e mais gordinho, era o Wesley. Esperanças ocultas do futuro dos irmãos sumiam tão rápido quanto a espuma das ondas que morriam perto deles. Mas Wellington, que desconhecia o poder de sua pele fresca ao olhar concentrado para o mar, seria forte não porque brincava ali na Praia do Forte, mas porque carregava contornos de guerreiro, sob a percepção inexplicável de uma estranha.

“Puxou a mãe, olhe que bonita, logo ali atrás”. Pele um pouco mais clara. O selfie a isolava da realidade, inclusive dos filhos, na busca pelo ângulo perfeito para a foto. O cabelo descia até a cintura e dançava com a ajuda da ventania, todo dividido em dezenas de tranças finas e delicadas. Os possíveis filhos, dois meninos negros, filhos de mentira, ou de verdade, os quais os turistas imaginavam ser dela.

Os séculos de tragédias, atrocidades e ódio contra a cor de ébano de uma pele tornavam aquele menino desconhecido tão inspirador. Porte de príncipe, uma importância misteriosa que impunha respeito apenas por ele estar ali brincando sentado na praia, alheio a tudo ao redor. Meninos desconhecidos são facilmente esquecidos, no segundo seguinte os matamos no pensamento e na memória, como papel rasgado. Aquele ficou impregnado na minha lembrança.

Às vezes parece que um destino clichê idealizado para os negros povoa a mente da maioria das pessoas. O vento aumenta na direção contrária e o menino fica pequeno, lá atrás, na paisagem. Chegamos ao fim do caminho, não há mais para onde ir. A montanha de rochas se ergue desalinhada e atrás o mar a ancora, com ondas lentas e pequenas. O destino de Wellington poderá ser de sorte, sucesso, de uma vida bem sucedida, se alguém lhe falar sobre isso. Se ninguém ajudar ele nunca saberá, ou descobrirá muito tarde, como os negros do poeta Derek Walcott, em Omeros, cujo cenário é no Caribe, Santa Lucia. Um desses negros é Sete Mares, personagem de Omeros, preto velho cego que passou grande parte de sua vida navegando pelo mundo. Como um xamã ele perambula pelas ruas, faz previsões, mas passa a maior parte do tempo, acompanhado de seu cão, à sombra da farmácia, o lugar onde todos buscam a cura.

Minha previsão silenciosa para a vida de Wellington foi a melhor possível. Magro, com porte elegante, simpático e de uma beleza de capa de revista, o menino da Praia do Forte poderá ser o que quiser, tal qual um presidente que chegou lá. Nem sempre o que pensamos acontece. A mãe dele continuava sentada na mesma areia tão concentrada no celular que nem sequer viu que paramos duas vezes para conversar com os filhos, na ida e na volta, quando já estava frio.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas