O dia da chegada de Guineto ao céu [Alexandre Brandão]

Posted on 09/07/2017

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(Imagem: Átila Roque)

Ao Sílvio Sales, que é fã do sambista

Em maio deste inominável 2017, Almir Guineto bateu à porta do céu. Durante a triagem habitual, São Pedro comunicou-lhe que um pouco mais tarde Deus o receberia para tratar de um assunto. Guineto, que já deixara o corpo frio para trás, viu a alma gelar. Medo. Medo de Deus. Estranho medo, mas justificável, ninguém chega ao céu com o escore de pecados zerado. Ciente de seus pecadilhos, o sambista do Salgueiro cismou que seria despachado para o inferno. Melhor seria se São Pedro não houvesse cochichado ao pé do seu ouvido, ainda que, por não ter tido som algum, não se escutara exatamente um cochicho, e, além do mais, alma não tem ouvido nem nada que se assemelhe ao corpo.

O sambista foi instalado em seu aposento, uma nuvem imensa, de onde ele conseguia ver a vida, a sua e a de quem quisesse, desde a infância até o derradeiro dia. Depois de matar a saudade de seus dias de criança no morro, riu do futuro do Brasil. Riu de nervoso. Pensou em fazer um samba, mas o som, no céu, não passava de uma sugestão e um samba insonoro não era samba. Será que Deus justificaria sua transferência para o inferno baseado na premissa de que a turma do samba não vive onde não há som? Cartola estaria no inferno? Clementina? Noel? Ou será que Deus, na ditadura do céu, desprezava os negros? Acostumado com o preconceito sofrido ao longo de seus setenta anos, preferia manter um pé atrás, mesmo estando no paraíso. Quis olhar-se no espelho — alma não tem cor? —, mas não havia espelho, havia somente a sombra projetada pelo sol sobre a nuvem, e, na terra ou no céu, do corpo ou da alma, toda sombra é negra. Melhor não se agarrar a teorias espúrias, impossíveis de testar e — melhor ainda, prudente até —, pedir uma força para Iemanjá, Iansã, Xangô. Quer dizer, Nossa Senhora da Conceição, Santa Bárbara, São João. Não era fácil livrar-se dos costumes terrenos, que Deus relevasse a heresia de um recém-chegado.

Visto do céu, o momento de sua morte foi apenas um olho franzido no rosto de um homem alto — um negão que fez sucesso com as mulheres, ah, isso sim —, nem uma expressão a mais. Mais um motivo para um samba. Mais um motivo para se lembrar de como seria duro viver eternamente sem batuques. Quem sabe o inferno? Esticou a alma no macio da nuvem. Já não sentia tanto medo ou, por outra, já não via sentido em ter tanto medo. Era uma alma sob controle.

“Deus te espera”, avisou-lhe o anjo, e, no mesmo instante, o sambista estava diante de Deus. “Guineto! Venha aqui, rapaz.” Almir rasgou o sorrisão de sempre e jogou-se nos braços naquele instante abertos, esperando por ele. “Uma das minhas alegrias, meu filho, foi quando ouvi, ecoando pela imensidão, a voz da Beth cantando ‘Coisinha do pai’. Nesse mundo silencioso aqui do céu, aquela música abrandou um pouco minha solidão.” O compositor não conseguiu segurar a emoção e chorou copiosamente, o que não o impediu de ficar intrigado: se não havia som por ali, como é que Deus ouviu a música? Almir, envergonhado, constatou o óbvio: Ele era Deus.

Deus confessou que o motivo daquele encontro era outro. Guineto suou frio. O Senhor tomou-lhe a mão e pediu-lhe que se acalmasse. Gostaria apenas de agradecer ao moleque do Salgueiro por ter cantado “Saco cheio”. Almir encarou-o com espanto e curiosidade. “Sim, estou cansado, muito cansado e é isso que se diz na música: ‘Deus já deve estar de saco cheio’. Ô, como estou!” O sambista ensaiou um movimento na direção do Pai, mas foi contido. “Não, querido, não se preocupe, é meu fardo”, e continuou: “Você bem tentou dizer aos homens, mas eles, mesmo tendo a faculdade de dialogar, são incapazes de alcançar a verdade. Você não vê? Olhe ali para o futuro: não demora muito, aquele energúmeno lá em Brasília dirá que fui eu quem o colocou num lugar no qual nunca deveria estar. Eu, meu Almir? Eu?” Deus suspirou, passou a mão sobre o corpo imaterial do sambista e aconselhou-o a passear pelo céu. “Logo você encontrará a sua turma: um tal Geraldo Pereira, outro tal Luiz Carlos da Vila, a forte Jovelina Pérola Negra, os seus, você sabe quem são, eu os chamo de as almas levadas do céu. Acredita que, mesmo não sendo possível produzir som nesse cantinho do infinito, continuam a se reunir em rodas de samba e a beber umas cachacinhas que — sabe-se lá outro Deus como — chegam a eles? Faço vista grossa. São os meus mais queridos inquilinos. Vá, vá, eles preparam uma festa para recebê-lo.”

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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