Para que servem os perfeccionistas? [Rubem Penz]

Posted on 07/07/2017

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Eles costumam ser exigentes, detalhistas, severos, teimosos e arbitrários. Também estudiosos e dotados de uma memória muito além da média. Quando escolhem algo para dedicar atenção (quando não a vida inteira), aprofundam-se de tal modo que a almejada perfeição, se não é alcançada na totalidade, fica nas beiras. Os perfeccionistas são obsessivos compulsivos a nosso favor.

Por exemplo, durante os últimos trinta anos o mesmo par de baquetas me acompanha na bolsa que leva os apetrechos de baterista. O mesmo par é modo de dizer: incontáveis pares novos substituíram os já desgastados pelo uso no transcurso do tempo. Porém, graças ao perfeccionismo do fabricante, entre as baquetas deixadas para trás e as substitutas, havia apenas a restauração do melhor som que a delgada cabeça de madeira produz ao encontrar-se com a pele e com o metal. E por “melhor som” entenda-se aquele que eu desejo ouvir ao percutir tambores e pratos com o meu gesto – absolutamente particular.

Quem não é músico talvez apenas suspeite que a intimidade entre homem e equipamento seja lúdica, amorosa, intensa. Jamais dediquei tempo suficiente à música para ter alta performance, porém, circunscrito à minha limitação, alcancei o patamar de assinatura, um jeito particular de criar sons. E, entre baterista e bateria, há sempre um par de baquetas fazendo a mediação. Ele se torna nossa extensão absoluta – o peso, o equilíbrio, as dimensões, tudo conta. As baquetas perfeitas desaparecem ou, dito de outra forma, confundem-se com nosso próprio corpo. Isso é quase magia.

O bruxo responsável por este encantamento faleceu esta semana em Porto Alegre. Chama-se Clóvis Ibañez. Sem sombra de dúvidas um dos mais notórios perfeccionistas que já conheci. Homem feliz, se considerarmos a conquista do respeito e admiração como sinal de felicidade. Alguém que foi capaz de somar sua paixão pelo instrumento à busca incessante pela perfeição e, com isso, fabricar algumas das baquetas mais constantes que o Brasil conhece. Também era uma verdadeira enciclopédia do jazz – seu grande entusiasmo. Obsessivo, e muito, para nosso bem.

A música nascida das mãos dos bateristas que usam sua linha de baquetas tratarão de eternizar sua passagem pela terra – e são poucos os homens que esticam a existência. De minha parte, espero ter por muito tempo um par de C.Ibañez nas mãos enquanto puder tocar a vida. Será minha maneira de andar de mãos dadas com o amigo Clóvis, esperando que, de onde esteja, sinta orgulho de seu trabalho. E quando acertar uma levada mais surpreendente, vou recordar dele na plateia, esticando o pescoço para ver melhor, num meio sorriso. É isso, gente: os perfeccionistas servem para, entre outras coisas, deixar saudade.

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Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas