A chance de ficar calado [Marco Antonio Martire]

Posted on 05/07/2017

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Deu na imprensa. A cantora escocesa Annie Lennox, responsável por 75 milhões de discos vendidos, recebeu de uma rádio californiana uma peculiar proposta de trabalho: a coordenadora musical da rádio encontrou na rede uma seleção de canções da veterana cantora e gostou do que ouviu. Imediatamente teria enviado um email para a talentosa artista de 62 anos de idade, 40 anos de carreira, quatro prêmios Grammy, tratando-a como se fosse uma iniciante.

Cá do meu canto de mercado, a notícia nem parece tão espantosa. Penso no porquê de Annie se lixar a ponto de divulgar. Deve ser a nossa recorrente reclamação, a velha história da falta de respeito: somos sujeitos da precariedade das relações, não vale a prontidão dos laços de amizade e afeto, vigora sob o sol amarelo e nas rádios um toma-lá-dá-cá motivado por necessidades momentâneas e fugazes. Daí que não se experimenta o verdadeiro respeito, o que certamente a tal coordenadora musical teria experimentado se tivesse se dado ao trabalho de uma pesquisa básica sobre a artista que aprendia a admirar.

Repercuti a notícia aqui em casa e a turma passou outros exemplos. O estagiário chegou certa manhã no trabalho louco por apresentar a banda incrível que havia descoberto na rede, seu tom de voz era de incontestável novidade: a banda se chamava Dire Straits e a música era Sultans of Swing. Demos risada.

Acrescento que atribuem a Nelson Rodrigues uma frase cascuda sobre o assunto: “Jovens, envelheçam!”

Não sou nem um pouco a fim de radicalizar de pé diante do povo jovem, muito bom ser jovem, tanto que a onda colateral desse assunto proposto por Annie Lennox é a galera veterana — que acumulou um pouquinho mais de sorrisos nesta vida — passar a se considerar repentinamente antiquada, para não dizer velha. Não deixa de ser uma vingança da tal coordenadora musical, cuja carreira a vocalista do Eurythmics teria jogado na fogueira ao divulgar o conteúdo do desastrado email. Não sei o que aconteceu com Kylie (esse é o nome dela), se perdeu o emprego ou se foi até promovida. Mas fica nas nossas mãos de ouvintes um cartaz enorme onde anunciam sei lá que terrível idade. Quando a gente olha, debaixo do mesmíssimo sol, impossível não ver. Também por isso nós batemos palmas, Annie Lennox sabe. Já Kylie eu não sei, que tenha a chance de mostrar que aprendeu.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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