Crônica em maiúsculas [Guilherme Tauil]

Posted on 04/07/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Você conhece o tipo: é de manhã, o dia ainda está se fa­zendo, mal dá para saber se o sol vai sair, e já está falando alto. Grita no ponto de ônibus como se estivesse num show de heavy metal. As pessoas em volta o reprovam com seus olhos inchados, mas ninguém tem coragem de fazer shhh e ele continua sua epopeia ruidosa.

Eles são muitos e estão espalhados pelo mundo. Nas salas de aula, nos consultórios, nos bares e, sobretudo, na casa ao lado. Parece que para ser meu vizinho é preciso ter algo contra o silêncio. Em São Paulo, o senhorzinho do andar de cima arrasta móvel, grita, canta, toca violão, tosse, xinga o neto, aumenta o volume e vive martelando. Está claro que um idoso desses abandonou o projeto natural da velhice, que é tornar-se sábio e sereno numa poltrona con­fortável, e, portanto, não merece nenhuma complacência.

Em dias difíceis, respondo sua cantoria com vassouradas no teto, na esperança de que o barulhento, surpreendido por barulho maior, perceba o que está fazendo. A única maneira de se pedir silêncio é quebrá-lo, às vezes em vários pedaços.

Como os exaltados não se satisfazem com pouco, falar gritando não é o único defeito deles. Há outros hábitos terríveis, e o pior é o de nos encharcar com perdigotos, uma chuva de baba da qual nunca se sai seco. Na internet, gos­tam de escrever aos berros, tudo em maiúsculas. Você nunca sabe se estão querendo dar destaque, gritando ou se apenas há um besouro pousado no caps lock.

Um ponto decisivo para caracterizar os ruidosos é o modo de espirrar. Insatisfeitos com o discreto espirro do cidadão comum, que consiste em inalar um pouco de ar com a boca aberta, fechar os olhos e levantar a cabeça, fa­zem um grande e espalhafatoso preparatório para anun­ciar sua golfada.

Também é comum o tipo falar ao celular em locais pú­blicos mas fechados – nos ônibus, por exemplo. Conver­sa tão à vontade que parece estar no conforto de sua sala. Quando divido viagem com um desses, tenho a impressão de que sei mais sobre sua vida que um amigo de infância.

Em casos piores de insaciável fome por decibéis, o sujei­to não se conforma em gritar apenas em casa e decide que a cidade precisa compartilhar de seu barulho. É ele quem dirige o carro com todos os vidros abertos e o som no úl­timo. Uma vez, parei ao lado de um no semáforo e fiquei constrangido, não pela situação em si, mas porque o moto­rista permanecia imóvel em meio ao funk ostentação. Não acompanhou a batida com a cabeça, nem abriu a boca para fortalecer o refrão. Ficou quieto, olhando sem compromis­so para nenhum lugar específico, como se fizesse força para encontrar na memória quantos pães de sal sua mãe pediu para comprar: contando os plaquê de cem, eram dois ou três?, dentro de um Citroën, mas só o tio come uns quatro, aí nóis convida porque sabe que elas vêm, acho melhor levar seis, se sobrar faz torrada.

O problema, alguns dirão, é o funk. De modo algum: é o barulho mesmo. Fosse a nona sinfonia de Beethoven, também acharia ruim. É que não tenho a capacidade de me concentrar com tanto ruído, assim como o funkeiro do carro e o Villa-Lobos, que conseguia compor em qual­quer situação, alegando que o ouvido de dentro não tem ligação com o de fora. Coisa de gênio. Eu, mero mortal, não posso nem com gente que fica clicando a caneta na biblioteca, téc téc téc téc.

Levo susto toda vez que chega a hora da propaganda na televisão. Não sei quem deu aos publicitários o direito de aumentar o volume da minha tevê de repente. Dá uma vontade de ligar para os órgãos competentes, acionar as au­toridades, escrever carta para o presidente. Mas, paciência, não vale a pena. Seria muito barulho por nada.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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