O dia em que ninguém morreu [Cássio Zanatta]

Posted on 03/07/2017

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Houve um terremoto no Nepal, um tiroteio em Bogotá, uma mina que se supunha desativada explodiu num subúrbio de Bremen e até um cardíaco ganhou cinquenta milhões na loteria, mas foi inútil. Domingo, feita a contabilidade, ninguém morreu no mundo.

O padre foi chamado às pressas para uma extrema-unção, mas chegando à casa do moribundo, encontrou o cidadão jogando capoeira e todos, o ex-moribundo inclusive, se esbaldaram com os bolinhos de chuva que a viúva adiada sabia preparar como ninguém.

Ninguém soube explicar como foi possível. Como 38 balas perdidas só encontrarem como alvo troncos de árvores e muros grafitados. Três mil, cento e noventa e quatro acidentes pelas estradas do mundo e só alguns carros tiveram perda total. Muitos se engasgaram e logo se desengasgaram, afogados boiaram por milagre, até um vaso caído da janela não encontrou cabeça alguma no caminho. E como ninguém teve um peripaque na disputa de pênaltis que decidiu o campeonato?

O coveiro pôde assistir ao Faustão esparramado no sofá, os parques não sentiram nenhuma ausência, o redator de anúncios fúnebres sentiu-se inútil, o roxo só esteve presente em alguns olhos machucados e as floriculturas só se dedicaram a fornecer flores para a declaração dos amores. Mesmo São Pedro deixou seu posto de cicerone, guardou as chaves do céu na gaveta e pode enfim ler Gabriela Mistral em paz.

As pessoas puderam comprar de tudo, porque tudo o que estava pela hora da morte ficou bem mais em conta. Quem não achou graça foi o filho canalha, que estava era de olho na herança e teve que chupar o dedo vendo a mãe dançar valsa rodopiando com a vassoura.

Nenhum telefonema deu a má notícia, não foi preciso dizer a nenhuma criança que alguém tinha virado estrela, os lenços só foram úteis nos espirros, as velas só se acenderam para os parabéns e as carpideiras estranharam o velório vazio e a falta de ter a quem consolar.

Seis bilhões de pessoas e nenhuma morte no domingo. Vencemos os vírus, bactérias, desastres, violências, guerras, a falência múltipla de órgãos. Todos estamos de parabéns.

Sem saber como lidar com tanta gente que fugiu da sua responsabilidade de morrer, as grandes lideranças mundiais se reuniram e convocaram a morte para dar explicações. Eis que ela surge, não a figura assustadora da caveira com foice na mão, mas uma ruivinha sardenta aparentando 32 anos, de chinelo de dedo e mascando chiclete, que disse:

– Foi mal aí. Pensei que seria legal não morrer ninguém, isso não acontece há milhões de anos. Não sabia que causaria tanto espanto.

Houve discussão, debate, mal estar, que hoje tudo é motivo de discussão, debate e mal estar. Nem bem a morte desceu do púlpito, um homem de 88 anos na Islândia, enquanto olhava um álbum de fotos antigas na tarde já escura, teve um troço lá e baubau.

Mas já eram 12 segundos da segunda-feira.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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