Palavras, frases, não muito mais [Raul Drewnick]

Posted on 02/07/2017

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Nunca citar o nome de Millôr em vão.

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O haicai é uma forma aprimorada de silêncio.

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Os maus exemplos não deixam de ser exemplares.

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Amor hoje é uma atividade voltada quase exclusivamente para fins recreativos.

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A razão, se não lhe impusermos limites, é bem capaz de negar a existência de um arco-íris.

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A esperança é a última que morre porque acredita em provérbios.

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Ainda que só como mero exercício, o poeta deve chorar ao menos duas vezes por dia.

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De tantos em tantos anos, as reformas gramaticais nos informam se o hífen tem ainda algum ou já perdeu todo o prestígio.

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O artista deve ser rebelde e transgressor na época certa, a tempo de ter sua rebeldia e suas transgressões reconhecidas como clássicas.

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Os poetas tinham coração; alguns, até alma. Os relatos sobre esse período são poucos, mas unânimes.

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Se um gato, qualquer gato, não for melhor que um homem, qualquer homem, tudo está errado com ele.

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Que desinteressante a história dos poetas  modernos. Nenhum mais morre de amor ou de fome.

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Quando dizemos que somos um traço na areia, há alguma presunção em nós. Somos areia.

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Com as redes sociais, descobrimos que não há assunto sobre o qual um de nós não tenha ao menos uma opinião.

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Se o amor fosse mesmo grandioso como você o imagina, você o mereceria?

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Sei que te faço falta quando olhas para todos esses ao teu redor e não há nenhum que possa ser o bobo da corte.

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O melhor do amor é esperar por ele num banco de parque, lendo um livro do Quintana.

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Se ninguém nos reconhecer como poetas, sempre podemos invocar nossa loucura e autonomear-nos.

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Frases de espírito não costumam pagar as despesas do corpo.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas