Na parede e no coração [Madô Martins]

Posted on 30/06/2017

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Quase na hora de virar a página do calendário e inaugurar uma nova imagem do neto. Porque o filho, fotógrafo, reservou uma pose diferente a cada dois meses, mostrando o crescimento do bebê que hoje já é um menino. Nasceu em 2016 e, até completar um ano, festejávamos cada mês de sua chegada, com gratidão, alegria e presentes. Mas a vida andou dando umas cambalhotas, e perdemos vários mesversários. Cuido que o próximo não passe despercebido, para manter a tradição familiar recém-instituída.

É encantador marcar o tempo dessa forma, assistindo o botão virar flor. Agora já ensaia os primeiros passos, exibe vários dentes, mastiga alimentos, interage com os adultos. Julho e agosto trarão a lembrança de um bebê robusto, acomodado numa cadeira já descartada, porque não oferecia mais segurança. Ele a transformou numa espécie de cama elástica, saltando cada vez mais alto, e passou a escalar o encosto, desafiando a lei da gravidade.

Hoje, novas traquinagens deixam em alerta pais, tios e avós. Gosta de abrir e fechar gavetas, mas é esperto, atento para que os dedos não se firam. Gosta de disparar pela casa, engatinhando e dando gritinhos de excitação, a nos convidar a brincar de pegador. Gosta de investigar os vãos dos móveis e, quando possível, neles se esconder. Gosta de acariciar a gata, que ainda se esquiva de seus agrados, porque lhe falta delicadeza nos gestos.

Já aprendeu a tirar os sapatos e tenta desvendar os mistérios do cinto de segurança da cadeira onde se alimenta. Passa muito tempo dispondo os brinquedos numa ordem só dele, amontoando-os de um lado, para, em seguida, movê-los para o outro. Dorme tranquilo, desde que acompanhado. Pratica um arremedo de escovação dos dentes, saboreando o gosto inédito do creme dental. E usa a mamadeira com desenvoltura, para tomar leite, suco ou água, segurando-a com as duas mãos.

Tem fã clube entre as monitoras da escolinha, que disputam a vez de levá-lo ao berçário ou aos pais, na saída. Há pouco tempo, mostrou que já é capaz de encaixar as peças dos brinquedos de armar e gosta muito de acionar botões e teclas que produzam sons. Também improvisa brincadeiras com a colher da papinha, os chinelos que encontra pela casa, papeis, que transforma em tiras e depois, recolhe, porque dá sinais de ser ordeiro.

Ainda não fala, mas estala a língua, imita motor, quando empurra os carrinhos, canta baixinho, quando distraído. Aguardamos, ansiosos, a primeira palavra. Por enquanto, ele nos brinda com sílabas e bolhas de saliva…

A cada semana, acompanho sua evolução, que sempre surpreende e encanta. E esqueço que envelheço, enquanto ele cresce…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas