Franja torta [Elyandria Silva]

Posted on 27/06/2017

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Franja torta, um lado mais curto que o outro, resultados de um cabelo cortado em casa pelos familiares. Que nada, nenhum problema, quando o processo de corte terminava, retirava-se a toalha das costas, espanava os fios cortados dos ombros com uma escovinha e todos iam para o espelho ver como tinha ficado. Satisfeitos, todos sorriam e faziam comentários. A menina percebia que algo tinha dado errado, mas preferia permanecer calada. Os tais pressentimentos eram confirmados na escola na segunda-feira. “Sua franja está torta”, alguém comentava, geralmente uma coleguinha maldosa. Nada a dizer, nada a contestar, apenas o orgulho de ter dois cabeleireiros em casa, a avó e o pai, e não ter de gastar em salões de beleza. Seguia firme, de cabeça erguida, mochila nas costas. Nas fotos, feliz, dente faltando na frente e franja torta na testa.

Quando adulta eram belas as madeixas, longas, morenas, depois loiras, uma leve tentativa de entrar para a turma das ruivas, sem sucesso, e a volta à normalidade. Tinha sorte, lavava com xampu barato, qualquer um, sem precisar de marcas caras, e ficava lindo, um espetáculo, com jeito de ter ficado horas no salão.  Ainda hoje é assim, quero dizer em relação ao xampu, os mais baratos produzem os efeitos mais surpreendentes, a sorte continua! Nem tudo são flores, digo, fios, pois os brancos começam a aparecer anunciando a suave passagem do tempo.

Em a História do Cabelo, 2º livro de uma trilogia, que tem como pano de fundo a época da ditadura, o escritor argentino Alan Pauls conta os diversos momentos da vida de um homem que tem uma relação obsessiva com seu próprio cabelo e a constante preocupação com o mesmo, a ponto de a cabeleira tornar-se o centro de sua vida. Percebe-se, no início da leitura, que a escolha do tema é metafórica, está ali como “bode expiatório”, talvez um símbolo que acompanha o desenrolar do romance. O escritor propõe uma reflexão sobre a responsabilidade de se ter um cabelo através de uma narrativa densa e atrativa que passeia pela linha do tempo do personagem.

É quase lei: “Tenha cabelo bonito e conquiste o mundo”! Os comerciais de xampu impõem, não tem jeito. Sem saída, pobres mortais, na grande maioria mulheres, correm desesperadas em busca das poções mágicas que garantam uma vaga no mundo daqueles que tem lindos cabelos. Em crises agudas de narcisismo me apaixono por meu cabelo de um jeito que tudo fica melhor, o dia mais feliz, sem exageros, porque não existe mulher que tenha um dia bom quando está de cabelo ruim. O que Sansão diria disso tudo? Arrisco dizer que Sansão – cujos cabelos eram a fonte de sua força sobre-humana -adoraria esses novos tempos de culto aos cabelos.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas