A burrice do Sr. Niemayer [Daniel Russell Ribas]

Posted on 26/06/2017

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Meu amigo Luiz Felipe conta uma história que adoro de uma tia dele. Essa parente, muito querida por ele, era o terror da família por seu jeito sem papas na língua. Uma mistura de Tia do Pavê com Supersincera. Inteligentíssima e autodidata, formou-se em decoração de interiores pelo Liceu francês em sua terra natal, adaptando um curso de Belas Artes, pois não havia tal especialização na época. Ela se envolve em um trabalho que contava com o já renomado Oscar Niemayer. Acima do bem e da lógica, o arquiteto de Brasília projetou um canto do teto curva para armários cujas portas eram de ângulos retos. A tia do Luiz Felipe olhou aquilo, incrédula. A porta, por mais bonita e ousada em termos estéticos que fosse, simplesmente não fechava devido ao formato. Chegamos a minha parte favorita: ela, desconhecida, porém certa e certeira, encara o intocável “artista” e solta, na cara e na lata: “O senhor é burro, Sr. Niemayer?!?”

Sutilezas (ou falta delas) à parte, trata-se de uma atitude muito saudável questionar as autoridades. Meu pai dizia: “Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas.” Nunca entendi exatamente o que isso significa, mas me fixo no “burro”. E se, no lugar do digno animal, mais esperto que muita gente, o falante fosse apenas estúpido ou ignorante? Vale a pena ser subserviente porque a sandice vem de uma boca com síndrome de Roberta da Matta: “Você sabe com quem está falando?” Tem momentos em que a melhor resposta pode ser: “Não sei, mas o que você diz é bobagem.”

O diretor de cinema Terry Gilliam, que gosta de uma boa briga, comentou sobre essa pretens(ios)a consagração. Na entrevista no dvd do filme “A vida de Brian”, ele usou o termo “sacred cows”; “vacas sagradas” em tradução muito livre. Se me recordo corretamente, as referidas bovinas são resistentes a todos os golpes. Seguem acima das mesquinharias mortais. Gilliam provoca que devemos perfurá-las o máximo possível e ver por quanto tempo elas flutuam. Coerente para um cineasta cujos personagens são inconformistas e buscam na fantasia uma forma de rebelião.

É uma digressão muito útil em tempos de pressão. Somos atacados por todos os lados, testados em diversas formas. Muitos não aguentam. Professores na UERJ cometem suicídio porque estão sem salário e auxílio, sabiam disso? Quando soube disso, suspirei derrota por um breve instante: vale a pena um mundo tão fodido quanto este? Logo respirei fundo e me certifiquei que sim. Não necessariamente porque ele é bonito, é uma boa causa, lirismos e palavras de ordem e etc. Numa sociedade em que pessoas se matarem literalmente por não receber seus salários é “tolerável” (meu estômago embrulha ao escrever isso), vale a pena ficar mais para encrencar. “Só pra chatear”, como cantaram Ruy Faria e Carlinhos Vergueiro numa versão divertidíssima.

A pompa de doutores, infelizmente, não será derrubada cedo. Mas podemos fazer estes santos de pés de barro escorregar no samba pior do que gringo. É só encontrar o momento mágico. Acredite, surge. O lado bom de olhar somente para cima é perder toda a noção do entorno, onde habitamos. A segurança absoluta é a certeza de que em dado momento vai dar merda. Importunar membros de elite também serve para desopilar o fígado. Mandar se foder é saudável. Pense assim: se não houvesse foda, eu e você não estaríamos aqui em primeiro lugar. Ainda podemos mandar essa: “Não, senhor, não quis ofendê-lo. Somente lhe desejei uma coisa boa.”

A minha amiga, a pequena grande poeta Dani Haicai (Danielle Magalhães) escreveu num poema impactante sobre esses dias que são assado: “em todas as horas da vida alguém explode o tempo/ como um meio de vida e como um modo de amar”. Esta estupefação é natural. Devemos liberá-la das amarras sociais. Explodir o tempo é uma metáfora potente. É um favor prestado à humanidade não aceitar passivamente o que lhe é imposto. Busque saber, conhecer e, principalmente, desconstruir seus ídolos, mesmo que seja de uma forma seca. Afinal, Niemayer, apesar de ter tentado evitar, provou ser humano ao morrer. E todo ser humano nasce, falece e tem seus momentos de burrice.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas