Precisa de anões? [Carlos Castelo]

Posted on 24/06/2017

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Precisa de anões? – disse o anão agenciador de anões. Sim, respondi. Estava fazendo um freelancer para um músico de jazz, na capa do cd havíamos pensado em colocar a imagem de um anãozinho tentando escalar um contrabaixo de pau. Nu.

Se a ideia fosse rejeitada pelo artista, talvez o usássemos num outro contexto. Provavelmente passeando no centro da cidade ou dentro de um elevador. Também nu.

A busca pelo homenzinho era árdua. Tínhamos tentando em todas as redes sociais e nada. Foi quando o agenciador ligou, já bem tarde da noite. Pra o quê é? – quis saber. Pra uma foto de um disco, mas já te adianto: estamos sem grana pro cachê, respondi meio sonolento

O anão agenciador tinha uma voz igual ao do boneco Chucky e morava no Espírito Santo. Possuía um escritório especializado em explorar o nanismo alheio em produções de TV e Publicidade. Se vierem pra cá, descolo um monte de nanicos na faixa, prometeu.

Ficava inviável ir até Vila Velha fotografar um baixinho pelado. Meu tom de desânimo fez o agenciador se esforçar mais – arrumo um bom aí em Sampa. É o Oompa Loompa. Na sequência mando uma foto dele por WhatsApp, é ator e canta superbem.

O celular apitou e começou o download da imagem. O homenzinho era uma espécie de Sean Connery com um metro e dez. Carismático e misterioso, mas ligeiramente estrábico. Até aí tudo bem, o registro seria de perfil.

O agenciador fez uma ressalva: seria legal, depois da foto, vocês pagarem uma superjanta pra ele. Ou podem levá-lo num show, ele adora dançar. E depois, na balada, pagam o whisky dele.

Estava ficando interessante a conversa. Começamos com anões somente no Espírito Santo e agora já tínhamos um Oompa Loompa, bom de copo, alocado em São Paulo. E disposto a, além de fotografar-se nu, trepando num contrabaixo de pau, a jantar, encher a cara e dançar num night club.

Pedi um minuto ao empresário capixaba para consultar o músico. Enviei-lhe a foto de Oompa Loompa para aprovação. Pelo próprio whatsapp, recebi o ok, o modelo estava perfeito para a situação.

Retomei com o agenciador, não sem antes fazer uma brincadeira para quebrar o gelo. Nossa, eu disse, quando você mencionou a balada, entendi que fosse pra levar o Oompa Loompa na zona…

O atravessador soltou um berro de Chucky: Não! E concluiu: vou com ele pra Sampa, mas a puta, se vocês forem viabilizar, é minha, certo? Pelo menos essa margem de lucro eu tiro.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

 

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