Supervisão [Rubem Penz]

Posted on 23/06/2017

5



Dia desses, na casa do meu compadre (um lar muitas vezes mais tecnológico do que o meu) falávamos maravilhas dos óculos que estão próximos de aparecer no mercado. A promessa de casar a internet das coisas diante dos olhos promete ser uma revolução semelhante àquela da própria invenção da lente – diga-se de passagem, foi um prodígio fazer enxergar com perfeição quem, do contrário, seria quase cego. Resumindo, se lentes outrora reconstituíram a visão, o mundo virtual sinaliza com uma futura supervisão.

Será possível, por exemplo, contar com tradução simultânea entre mandarim e inglês, sueco e português, avô e neto. Nunca mais precisaremos chamar o garçom para trazer o cardápio (ele estará diante de nós ao sentarmos à mesa) e, num piscar de olhos, poderemos fazer o pedido. E, mesmo estando num restaurante no estrangeiro, combinando as duas vantagens já citadas, poderemos explicar ao chef que ele tire as alcaparras do prato pedido. E ele poderá nos xingar com eficiência, e poderemos sair do restaurante esbravejando compreensivelmente. E ninguém baterá em ninguém porque estaremos todos de óculos.

No caminho de volta, estaremos dispensados de descer do carro para ver a razão de o trânsito ter parado, especulando com o outro motorista que, como nós, lamenta o infortúnio. Tanto ele quanto todos saberemos que um motoqueiro está esticado no asfalto 2,7Km adiante, e o óculos do condutor que provocou o acidente já estarão passando para a polícia a visão do rapaz costurando em alta velocidade (ou que ele próprio olhava para uma moça bonita no carro ao lado no instante, causando a colisão). Estilhaçado, os óculos do motoqueiro trariam apenas a visão da tristeza…

Graças à supervisão, o comércio saberia onde nosso olhar repousa com mais vagar, ofertando seus preços com muita eficiência. E simulações quase perfeitas desnudariam rapazes e moças por mérito de aplicativos sacanas. Até a abanada de rabo do pet teria uma espécie de tradução, abalando de vez a hipótese de o cão continuar a ser o melhor amigo do homem. Gatos, então, precisarão se virar sozinhos, ou quem sabe abandonar a empáfia.

Quanto mais especulávamos sobre o tema, mais apavorado eu ficava. A internet das coisas poderá inundar nossa rotina com uma quantidade inimaginável de conteúdo e, pior, nosso simples olhar também mandará informações em tempo real para tudo o que é canto. Será o fim dos segredos, do mistério, do fascínio. Estaremos no Museu do Louvre sem sair de casa e, até quando no Louvre, saberemos da discussão entre dois vizinhos de porta. Por fim, depois de um breve silêncio (meu), ele afiançou: nós ainda veremos isso. Como referi, seu lar é tecnológico. O meu não é. Ele vislumbra a supervisão. Eu insisto na inglória e romântica miopia.

__________

Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas