A arte do trote telefônico [Guilherme Tauil]

Posted on 20/06/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Alô. Ninguém respondeu. Insisti: alô. Nada. Perguntei quem era e uma voz de criança esbravejou que não era nin­guém que me interessasse e desligou. Eu tinha acabado de ser alvo de um trote telefônico, traquinagem que pensava ter sido extinta pela disseminação dos identificadores de chamada, e como há muita gente que não me interessa, não pude identificar seu autor.

Dez ou quinze minutos depois, o telefone voltou a tocar e atendi com voz de autoridade sem tempo a perder, grossa e imposta. Alô. Silêncio. ALÔ! Baixinho, um pouco afastado do telefone, ouvi outros rapazes encorajando o locutor: vai, vai! Quis saber com quem ele queria falar. O jovem meliante disse que não era obrigado a dar satisfações a ninguém, mui­to menos a um velho com bafo de cachaça, e, pro deleite dos colegas, antes de bater o gancho me chamou de boca podre.

Os trotes, como quase tudo que está em decadência, têm um certo charme que não me permitiu ficar bravo. Pelo contrário, me fez relembrar dos tempos em que estava do outro lado da linha e resolvi entrar na brincadeira, retor­nando a ligação para o número que a bina tinha registrado.

Um dos rapazes atendeu, e quando me identifiquei como o boca podre, ficou estarrecido. Levou alguns se­gundos para, tremulamente, perguntar se eu era da polícia. Disse que não, embora fosse vizinho de um delegado, e dei os parabéns pelo empenho em reviver a arte do trote, o que o deixou mais surpreso ainda. Apontei suas falhas de amador, sugeri que preparasse um estoque de frases derradeiras, expliquei a dinâmica que um bom grupo de trotistas precisa ter e recomendei que praticassem sobre­tudo com estabelecimentos comerciais. Se quisessem se profissionalizar, precisariam trabalhar melhor. Desejei tudo de bom e desliguei antes de ser jogado mais uma vez no vórtice do tu-tu-tu.

O trote raramente é pessoal, e seu valor se realça quando é feito às cegas: apertar uma sequência aleatória de números é tão excitante quanto jogar na loteria ou girar a roleta-rus­sa, e a probabilidade quase infinita de combinações convida o moleque a continuar tentando. Acertar o telefone da casa do Pelé é apenas uma questão de tentativa e erro.

Certa vez, o mais experiente ludibriador do meu grupo, sem perceber que tinha entregado o indicador ao infalível condicionamento do hábito, acabou ligando para a sua avó. Quando reconheceu a voz, travou, sentiu-se impotente e desligou em silêncio. Virou-se para nós com o olhar das notícias ruins e decidiu nunca mais passar trotes. Tenta­mos consolá-lo, dizendo que ninguém é capaz de zoar avós, quem dirá a própria, mas em vão. Com a perda do líder, o grupo se desfez. Uns se dedicaram a melar a mão para bater bafo, outros a se especializar no “deixa que eu toco sozinho”, mas não era tão bom. Seguimos órfãos do trote telefônico.

Se você for o rapazinho que me ligou ontem, fique tran­quilo. O destino das chamadas telefônicas nos pondo novamente na mesma linha, posso até te passar alguns números de vítimas fáceis do meu caderninho antigo, lá do tempo das chamadas cruzadas.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

 

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Posted in: Crônicas