Convocação aos devedores de boa vontade [Cássio Zanatta]

Posted on 19/06/2017

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Essa é uma convocação, uma convocação mundial. Não precisa estar com o passaporte em dia, nem vestir verde e amarelo se for brasileiro, nem azul e vermelho, se francês, inglês ou americano. Não precisa jurar bandeira nem contribuir para o Exército da Salvação. É uma convocação para que todos os parentes, amigos e antigos namorados desse mundo criem vergonha na cara e devolvam os livros emprestados.

O que motivou esse sentimento pancívico foi que minha filha precisava ler um poema de Walt Whitman para a escola e eu, orgulhoso, procurei minha coletânea do mestre na estante. Não estava lá. Devo ter emprestado para não lembro quem ou quando.

Não estou acusando ninguém. Mesmo porque, me incluo nesse vergonhoso grupo. Lá está, na prateleira, a primeira edição de O Rei do Rock, do Veríssimo, me encarando e condenando. Porque sei muito bem a quem pertence e finjo que esqueci.

Isso não se faz. Um mínimo de decência, senhoras e senhores. Cadê meu Capitães de Areia com ilustrações do Carybé? Onde meu Menino no Espelho que eu li num fim de semana no Rio? Um livro de capa dura de contos de Machado com uma mancha de café logo nas primeiras páginas? Devolva o Benedetti que você me tomou e nunca leu.

Por que é que eu fui querer impressionar aquela moça, emprestando o Bandeira que eu lia no quintal da casa da vó, debaixo do pé de carambola e, quando chovia, vinha o perfume (estou apelando, que é para ver se ela se comove e faz chegar o livro de volta).

Poderíamos incluir nessa lista velhos LPs, CDs, brinquedos, revistas Placar, bolachas de chopp e coisas que um dia eram parte da gente e agora, só existem num lugar bem moitinha na memória.

Alguns métodos civilizados e indolores: devolver o livro com o nome do verdadeiro proprietário na portaria do prédio. Enviar pelo correio. Se for numa casa, passar correndo de bicicleta, jogar por cima do muro e torcer para que não haja um cachorro. Mas sempre há o cachorro.

Pode ser que faltem algumas páginas ou venha encartada uma receita de cocada que nunca funcionou. Pode haver uma folha de plátano que serviu de marcador e se esfarelou com o tempo. Páginas grudadas por geleia. Contas na margem. Não importa: o importante é devolver.

Talvez ganhemos o Nobel de Literatura (quem sabe também o da Paz) pela iniciativa que aflige gerações. Talvez sejamos condecorados pela Penguin, pelo Pen Clube ou pela destemida Editora Realejo. Ou tão somente podemos enfiar a cabeça no travesseiro e dormir um sono justo e leve, acreditando e contribuindo para que a humanidade tenha salvação.

Contanto que não toquem no Verissimo ali na estante. Há limites. É meu, por direito e usucapião. Senão eu viro bicho.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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