Definições e indefinições [Raul Drewnick]

Posted on 18/06/2017

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Poeta é aquele sujeito que, embora ninguém lhe pergunte, vai dando opinião sobre flores e passarinhos.

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Quem, em vez de uma, lança diariamente dez garrafas com mensagens ao mar, tem menos ou mais esperança?

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Todo pássaro tem alguma vocação para haicai.

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Na cama, podem parecer pecaminosos até fervorosos triságios como amor, amor, amor.

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A poesia é uma de nossas tentativas de deixar algum traço nosso em algum lugar. A poesia é um traço na areia.

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Às vezes penso que escrever é uma tolice. Às vezes tenho certeza.

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Seu maior amor foi o primeiro depois do décimo terceiro.

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É proibido jogar flores na caçamba.

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Um poema é mais ou menos como a seção de cartas dos leitores do jornal: há sempre alguém se queixando do amor.

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Um passarinho num poema nunca chega a ser um defeito.

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A prosa pode até esquivar-se, alegar que não é seu departamento, mas a poesia não deve nunca dizer-se indiferente à beleza.

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O haicai não nos avisa. Cai-nos na mão, como um prodígio.

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Tanto assunto e lá vem você perguntar de novo se nasceu primeiro a galinha ou se foi o ovo.

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Os poetas oficiais podem não entender nada de passarinhos, mas sempre sabem quem é o ministro da cultura.

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Pensando bem, esperar cem anos para se tornar um clássico não é proposta que se faça a um poeta decente.

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Se no peito de um poeta nascer repentinamente uma flor, ele há de ser humilde e reconhecer que andou compartilhando primaveras com Casimiro de Abreu.

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Declamadores antigos eram capazes, em noites inspiradas, de fazer ruir um teatro num recital de poesia.

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O bom dos velhos tempos era que não éramos velhos como hoje.

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Pegue um pedaço de amor e esprema-o bem espremidinho. Derrame o líquido no jardim. Se as rosas morrerem, é culpa sua.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas