Marias e Anas [Mariana Ianelli]

Posted on 17/06/2017

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Conta o Proto-Evangelho de Tiago que Maria, com três anos de idade, dançou no altar do templo do Senhor. Talvez a imagem mais bonita de Maria menina, a mais forte em alegria, mais do que sua figura de criança lendo um livro pelas mãos de Ana.

Levei muito tempo para perceber a quantidade e importância de Marias e Anas na minha vida. Maria das Dores. Maria da Glória. Maria Lúcia. Maria Luiza. Maria Rosa. E outras Marias mais discretas que um dia se omitiram (em vão) cedendo lugar a segundos nomes. Marias bordadoras da verdadeira púrpura. Marias que mantiveram vivas as meninas que elas foram. Anas Marias. Anas ligadas a outros nomes. Adriana. Giuliana. Ana Carolina. Ana Luísa. Annas com duplo n. Todas Anas sábias, maduras de amor.

Por engano do escrivão, sou Marianna na certidão de nascimento. Diz a mãe que a escolha do nome foi selada uma noite no bar do Portella, trinta e oito anos atrás, com uma batida de coco. O nome vinha daquela canção de Leonard Cohen meio alegre meio desconsolada que fala de um amor à distância e pálpebras lavadas na chuva.

O que há num nome? Há uma menina que dança. Há uma mulher que escreve cartas para Leonard Cohen.  Há um porre de cachaça e o céu girando. Há fossas abissais onde vivem seres de corpos transparentes que produzem a própria luz e tem caras monstruosas, bocas imensas, dentes desesperados. Há um vidrilho de oração, como uma estrela doméstica guardada na palma da mão – Mãe, abre tua rosa. Me dá o perfume da tua presença. Me faz sentir nos teus espinhos a sabedoria de os haver suportado. Abre tua casa, Mãe. Me abriga. Me abraça.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

 

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Posted in: Crônicas