Questão de idade [Madô Martins]

Posted on 16/06/2017

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1. Retirar a casca da laranja com cuidado, formando uma grande tira. Guardá-la sob o travesseiro. Na manhã seguinte, jogá-la para trás, sem olhar. Depois, verificar se formou alguma letra no chão: essa será a inicial do nome do futuro namorado.

2. Num prato fundo com água, pingar a cera de uma vela. Nas gotas flutuantes, aparecerá a inicial do nome do futuro par.

3. Num copo com água, depositar uma agulha. Quando ficar parada, aquela que apontar será a próxima a iniciar um namoro.

Pré-adolescentes, parecíamos aprendizes de bruxa, copiando os sortilégios praticados pelas meninas maiores no dia de Santo Antônio, com a permissão dos pais, que se divertiam com nossa ingenuidade. Deitávamos tarde, porque os preparativos precisavam ser feitos à meia-noite, na passagem de 12 para 13 de junho. E o sono demorava a chegar, pois estávamos excitadas demais com o que o destino nos reservaria.

As mais velhas permaneciam acordadas até a madrugada, não só praticando magia, mas cantando coisas como “matrimônio, matrimônio/ isso é lá com Santo Antônio”, sem falar na coragem de deixar o santo mergulhado n’água de ponta-cabeça, até que lhes trouxesse o príncipe encantado de seus desejos.

No dia seguinte, o quarto cheirava a laranja e nem sempre a casca formava uma letra, desiludindo a sonhadora que precisaria esperar um ano inteiro para repetir o feitiço. As maiores ficavam amarguradas, algumas até choravam de impaciência. Mas nós, as pequenas, esquecíamos tudo aquilo indo às quermesses com os pais para comer maçã do amor, pipoca, milho cozido, paçoca, enquanto pai e mãe saboreavam quentão e caldo verde.

Jogávamos argolas, participávamos de sorteios de prendas, pescávamos na areia, apostávamos em qual casinha o porco-da-índia ou coelho ia se esconder. Os pais atiravam em latas com espingardas de rolha, tentavam acertar o alvo com dardos, mediam forças, para fazer subir um peso a marteladas. As mães apenas torciam, porque as prendas seriam delas.

Nada disso interessava às mais velhas. Ficavam à espera dos bilhetes anônimos que os rapazes escreviam escondido e mandavam alguém entregar. Ficavam atentas a qualquer sinal, para descobrir o autor daquelas linhas, às vezes, versos. Andavam sem adultos na roda gigante e no trem fantasma. E pediam aos pais dinheiro para cachorro-quente e refrigerante, negando-se a comer à mesa, porque precisavam ver e ser vistas.

A tudo assistíamos, querendo que logo chegasse também para nós a idade de namorar. Aí, como elas, cuidaríamos mais dos cabelos, escolheríamos as roupas com esmero, passaríamos horas na janela, ouvindo músicas românticas, e teríamos alguém para carregar a mala da escola. Por enquanto, nos ocupávamos em fugir dos meninos de nossa idade, loucos para puxar nossas tranças e jogar nossa mala para o alto. Evitar suas brincadeiras brutas, como jogo de queimada, quando queríamos que nos ajudassem a cuidar das bonecas. E torcer por eles, quando apostavam corrida ou jogavam futebol, e sempre voltavam imundos e suarentos…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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