Crendices [Daniel Russell Ribas]

Posted on 12/06/2017

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Daniel Russell Ribas*

Sempre tive uma queda por crendices. Superstições bobas, daquelas que se espalham como bala no chão em festa de criança. Até hoje faço o máximo para não passar debaixo de escada. Com o tempo, passei a inventar as minhas. A mais intricada foi uma com borboletas. Se visse uma voando para a direita, era sorte. Caso fosse pela esquerda, o contrário. Cheguei a ter um debate com meu analista sobre isso. Eu realmente não sei o que tinha na cabeça quando relembro.

O tempo (e a análise) combinado com alguns toques de bom senso foi fundamental em estabelecer ordem neste mapa exótico e meticuloso. Meu amor por animais me fez abandonar quaisquer hesitações que tivesse em relação a eles, independentemente de cores ou datas. Um sapato virado é sempre um sapato virado, nada além (para bom entendedor…). Um corte de cabelo em determinada lua não afeta mais a queda que o estresse de todo dia sob o sol.

Aos poucos, a ausência de misticismo na rotina se transfigura em um fato pragmático e funcional. É muito cômodo aceitar que um trevo de quatro folhas não alterará o riscado. A magia do acaso se torna um produto de entretenimento vulgar. Para ser consumido sem uma pretensão maior, tal o horóscopo de jornal.

Por outro lado, de venenos surgem antídotos. Aquilo que nos prejudica pode ser a válvula para nossa liberdade. Basta mudar o ângulo. A ficção está aí para isso. Tudo o que inventamos é uma maneira de lidar com questões muito reais. Usamos a imagem ou “causos” para alertar os outros de situações hipotéticas. Como nos contos de carochinha, as “morais” dessas crendices servem para apliquemos na prática. Basta utilizar nossa ferramenta mais subestimada: a capacidade de interpretação. Passar embaixo de uma escada pode ser perigoso se houver alguém em cima, pois algo pode cair. Moral: olhe por todos os lados para não ser pego de surpresa. Cadernos alinhados simetricamente são um bom sinal. Evidente, pois é uma amostra de organização. Os gatos pretos… Bom, eles foram vítimas de uma época em que o conceito geral de Terra era plano, então, deixemos eles em paz.

À medida que deixamos de levar tudo ao pé da letra, nos libertamos para as possibilidades que estas crendices possuem de ensinamento. Como microcontos do fantástico, elas nos divertem e podem nos ensinar sobre a vida e nós mesmos.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas