Essas palavras… [Alexandre Brandão]

Posted on 11/06/2017

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(Imagem: Átila Roque)

… um tanto quanto clichês

Naqueles dias eu matava grito a perros e dormia de olhos deitados e corpo fechado. Sopesava cá com meus bordões jobinianos: o brasileiro não é para princípios claudicantes. Tentado a me distrair, assoviava tocatas e afastava-me da filosofia esbeiçando o pensamento em frase desfeita, por exemplo, uma que assim: não amo tudo que tenho, por sorte não tenho nada. Ai, ai, a caixinha é um futebol de surpresas.

Diabo velho, íntimo da cruz, fazia fé de que o trabalho havia sido criado pelo desleixo de Deus e que a vaca profana nascera com o brejo pra lua, certezas essas que me transformaram num descrente prontinho, prontinho para, não podendo mais, mandar tudo às favas e às fulvas paridas pela cor mais quente.

Voltando àquela sequência de exceções regradas — os fatos, nada mais que eles —, os tropeços dos comandantes foram tantos, mas tantos, que a lamparina do espírito desinstruiu-se de vez e aspergiu escuridão para tudo quanto é lado, a ponto de uma só andorinha obrar e voar pro verão.

 

… irônicas

— Moço, onde encontro explicação para a escravidão que não acaba, a corrupção que só faz crescer, a violência arraigada na gente?

— Lá no Grito do Ipiranga!

 

… marítimas

Nem todo vento venta como deve ventar. Quem inventa, inverna, quem inverna, inveja. O resto é naufrágio.

 

… de morte e de vida

Morri três vezes: de pinote, amor e preguiça. Sempre voltei de costas pelo Aqueronte e de peito pelo Estige e, num caso e no outro, cruzei o caminho de Caronte, a quem duas moedas e um silêncio eu devia e ainda devo, e por ele nunca fui visto. A sorte nadou comigo, por isso nasci três vezes, mas aí já não me lembro como.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

 

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