PQP [Carlos Castelo]

Posted on 10/06/2017

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Carlos Castelo*

Eu precisava sair de Mogi cedinho. Quando vi aquele nevoeiro na janela de casa já pensei: “póta-que-pariu!”

Ia ter que ir de moto.

Sai fora. Depois de um quilômetro, um quilômetro e meio: póta-que-pariu!

Tentei desviar, mas…póta-que-pariu!

Um buracão no asfalto que, póta-que-pariu, nem te falo.

Não deu tempo nem de falar póta-que-pariu, a moto já tava voando.

Só aí eu comecei a berrar: póta-que-pariu, póta-que-pariu, póta-que-pariu!

Não teve jeito, cai no barranco.

Quando vi como eu tava, todo esbagaçado, resmunguei: póta-que-pariu!

Depois comecei a gritar: “póta-que-pariu, sofri um acidente, póta-que-pariu me tira daqui!”

Demorou uns vinte minutos pra aparecer dois guardinhas. Olharam pra grota e um disse pro outro: “póta-que-pariu, será que tem um cara lá embaixo?

Eu comecei a urrar: “tem, póta-que-pariu, eu tô aqui!”

Me puxaram por uma corda. Minha mulher tava me esperando do lado da ambulância. Ela falou chorando:

– Póta-que-pariu, o quê é isso?

Eu tava estressado, respondi torto pra ela:

– “Isso” sou EU, póta-que-pariu!

Os malucos da ambulância não eram treinados pra coisa. Tentaram me colocar na maca me puxando pelas pernas.

Por aí não, póta-que-pariu! – urrei.

Mas já tava me sentindo melhor. Mandei eles pra póta-que-pariu e vim de busão pro serviço. Cheguei com duas horas de atraso, cheio de bandagem. Veio meu chefe, colou o relógio nas minhas ventas e bateu:

– Meio dia! Isso é hora de chegar, póta-que-pariu!

Virei pra ele e mandei com fé:

– Fica VOCÊ aqui que EU vou pra póta-que-pariu! Tchau! E sai fora. Vai pra póta-que-pariu!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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Posted in: Crônicas