O velho taxista [Guilherme Tauil]

Posted on 06/06/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Sem ônibus disponível e sem sola que aguentasse a chuva, fiz sinal para um táxi. Parou, entrei, pedi desculpas pelo guarda-chuva molhado e o motorista se riu: “Já peguei gente ensopada de sangue, essa aguinha não é nada”. Era um senhor de bigode contido, de pele manchada pelo tempo e de óculos de cordinha. Não se tratava, estava claro, de um taxista clássico que reclama de tudo, que adora chegar à conclusão de que bandido bom é bandido morto. Parecia um homem cheio de histórias, disposto a compartilhá-las.

Sei reconhecer um contador de histórias quando vejo um: contido no volante, ficou atento para capturar minha reação quanto ao acidentado que transportou. O interesse pode se manifestar por um olhar incrédulo, um franzir de sobrancelhas, uma pergunta retórica qualquer. Se o narrador for bom, até de um certo tipo de silêncio consegue depreender curiosidade. “Aqui neste banco?”, dei o sinal verde, facilitando seu trabalho. Autorizado a prosseguir, o velho taxista até se ajeitou no assento, contente por ter recolhido alguém que quisesse ouvir a aventura que envolvia uma discussão de bar, um empurrão, uma garrafa estilhaçada, um homem inconsciente na sarjeta, um táxi que passava, um resgate que só por deus e o início de uma longa amizade. Isso para pular a parte do hospital, que achei um pouco arrastada.

“Deve ser por isso que às vezes é difícil achar táxi, estão todos atendendo emergências”, brinquei. “Isso é porque você não deve ter esses aplicativos modernos para chamar o carro. Em trinta anos de serviço, nunca vi nada igual. Conhece?”. Conhecia, mas respondi que não, dando corda. Ele me olhou desconfiado, provavelmente pensando como diabos um jovem não conheceria essa tecnologia, mas puxou o celular do bolso e começou a me mostrar, “tá vendo esse mapa? Se tiver cliente por perto, ele apita, apita assim ó, gozado, né? Já mostra a foto do sujeito e como ele vai pagar, se você não for com a cara pode recusar o chamado, faço isso bastante, é cada coisa que me aparece”.

Perguntei que tipo de foto costumava recusar. “A gente sempre julga, né? É pela segurança. Mas não dá pra ficar recusando, tem que ganhar o nosso dinheiro. Às vezes eu passo pros motoristas mais novos, sei que o novato, como é o nome dele mesmo?, bom… não importa, sei que ele tá querendo comprar uma casinha, aí dou uma força. Eu já tô aposentado, meus filhos encaminhados, esposa não tenho mais, já viu separar depois de velho?, pois é.”

Quis consolá-lo quando afirmei que a idade é um detalhe, mas acho que não entendeu – ou não concordou, melhor conhecedor do tempo que eu. Na porta do prédio onde ia descer, tirei uma nota de vinte e deixei que ficasse com o troco. Antes de sair, apertei sua mão e pedi um cartãozinho. Sempre bom ter um motorista na manga para emergências. O senhor de bigode contido, de pele manchada pelo tempo e de óculos de cordinha sorriu, mas ficou sério quando disse que não me daria seu número: “É que já trabalhei muito. Amanhã eu passo o automóvel. Quero descansar. Esta foi minha última viagem”.

O velho taxista seguiu seu rumo com mais uma história para contar – esta, sobre um rapaz que ficou parado na calçada observando-o partir, com a sensação estranha de ter presenciado um momento único na vida.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas