Sala de espera [Cássio Zanatta]

Posted on 05/06/2017

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Talvez seja o único lugar no mundo onde luz faz barulho. E esse arrepio por dentro, vem do chão sem carpete ou da sem-gracice da decoração? Na parede há uma foto de Paris, talvez para dar aquela esperança ao cidadão de rever Paris. Mesmo que esteja desbotada e não alcance esse objetivo, bem sempre faz.

Há mais duas pessoas na sala. Checam seus celulares, evitam a troca de olhares. Sou do tempo em que esse papel era incumbência das revistas semanais. Eram sempre de meses ou anos atrás, e eu ficava me perguntando qual seria a relação entre cura e revista velha.

Meus companheiros de espera não me parecem piores do que eu, a mulher até sorri de algo engraçado que acabou de receber, talvez uma postagem de uma amiga com uma foto das duas vestidas de caipiras. Triste admitir que eu torço para que ambos estejam em péssimo estado, de dar dó. E que, perto dos delas, meu problema faça o médico sorrir e assobiar Adoniran.

A secretária já foi embora, ela nos explica que precisa ir à faculdade. Não nos devia explicação e seu motivo é justo. Mas é sempre chato saber que ninguém vai atualizar o café, trazer balinha ou fofocar com uma amiga o trabalho que dá a filha adolescente do doutor.

E essas flores de plástico? Por favor. Pelo preço da consulta, dava para colocar um vaso de flores de verdade por dia, dava não?

Olha ali do lado de fora. Dois passarinhos passeiam no parapeito. Como vejo através desses vidros temperados, não dá para identificar o que são. Mas devem ser pardais, só um pardal para passear em um lugar tão desinteressante. Ou pombas. Ou um incrível caso de amor entre um pardal e uma pomba. Ou uma pomba que veio cobrar uma dívida que o pardal está se fazendo de tonto e não quer pagar. Ou é essa febre que já causa delírios.

O outro pobre coitado é chamado para entrar. Ficamos só eu e a mulher na sala. Não deve haver registro de romances nascidos em salas de espera.  Imagine as puxadas de assunto: Belo termômetro, é importado? Aceita um antinflamatório? Na sua maca ou na minha?

Há um crucifixo no alto da parede e me pego pedindo uma mãozinha. Muito bonito. Quer dizer que nessas horas você se lembra dele e, nas boas, nem tchumbas, né? O inferno está cheio de duas caras como você, seu Cássio, e o seu passaporte será carimbado assim que essa porta se abrir.

Eis que a porta se abre.

É agora. Num segundo, passa pela cabeça o cafuné da mãe, aquele beijo,  o refresco de abacaxi da infância, seu pai cantando Noel, a guerra de pipoca no cinema, os olhos de Beatriz se cruzando com os meus, o primeiro banho de Maria, depois o de Pedro, e a Lua no meio do mato que me assustou de tão cheia e acordou os galos. Entro.

Minutos depois, o doutor diz que tudo está conforme os conformes. Saio do consultório achando que a vida é linda. Não há mais ninguém na sala de espera, pena: talvez eu dançasse uma valsa com a mulher que há pouco esperava comigo. Talvez ela me desse um tapa, mas o que pode doer agora?

Saio à rua. Não é Paris. Mas estou feliz como se fosse.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas