Balbúrdia textual [Raul Drewnick]

Posted on 04/06/2017

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Sou persistente só no sofrimento que, por me presumir poeta, gosto de me infligir. No mais, incuravelmente apático.

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Se falta algo às borboletas, é a alegria do canto.

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O senso comum é o que há de mais inapropriado para um poeta.

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Mil perdões. A celebridade que tenho hoje resume-se a um compartilhamento e um comentário: rsrsrs.

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Eu gostaria de ser um poeta daqueles que só escrevem frases para álbuns de adolescentes.

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A idade não nos traz sabedoria, só longevidade.

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Houve um tempo em que as cartas de amor se chamavam missivas, e quem as entregava não eram os carteiros, mas os beija-flores.

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A de vocês eu não sei. A minha mão há muitas décadas tem seis dedos: os cinco de hábito e a canetinha.

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O escritor naturalista não usa pesticidas na sua produção.

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Os poetas obesos choram de barriga cheia.

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O poeta concretista escolhe as musas entre aquelas mulheres que têm coração de pedra.

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Por não serem hábeis no tato como os concretistas, os poetas românticos ainda avaliam as flores pelo aroma.

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Que excitação sentiam os parnasianos ao beijar os lábios de puro mármore das estátuas.

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O homem chegou ao velório e perguntou à viúva onde era o banheiro.

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Imagino que só apareçam de gravata borboleta os defuntos que tenham declarado essa vontade por escrito.

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A verossimilhança ganha a vida imitando a verdade.

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Um livro de máximas é no mínimo pretensioso.

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Quem diz que nunca emite juízos de valor está depreciando os próprios.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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