A experiência da delícia [Mariana Ianelli]

Posted on 03/06/2017

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Alguém já disse que um bom escritor é aquele que nos dá ao menos uma palavra que até então não conhecíamos. Não é preciso lembrar quantas já nos deram os simbolistas ou os inventores radicais, de cozinha particularíssima. Basta uma concha de palavras raras, nascidas da mundividência de seus autores, e está proposta a experiência da delícia.

A Murilo Mendes dos mistérios mineiros, devo a descoberta de álulas e gândaras, solidônias e escabiosas. À Lélia Coelho Frota das palavras-sensações, devo goivos, bertalhas e uma paleta de cores especiais: a cor bruna, a cor blenda, a cor taful. Ao Jorge de Lima monumental, coribantes e gorjalas, hacaneia e xairel, ocelos e anhos.

Devo a Mario Quintana a visão ampliada para o que é volutabro e o que é gomil. Esse Quintana que já disseram ser simples, mas quando lido de ponta a ponta mostra requintes de uma ciência própria, que nos ensina até sobre os nossos corpos, que cada um de nós tem dois poplíteos, e que há tantos no mundo que são escanifrados, e há tantas coisas nesta vida que nós esbarrondamos.

A Henriqueta Lisboa, devo, entre outras coisas, os áditos de Maria e a miragem de uma lucilação. A Drummond, as debêntures da Fulana, um triste blau, um homem lhano, uma escumilha feita de imaginação. A Hilda Hilst, devo o princípio de tudo na delícia da palavra mórula, que vem de amora e sabe a morada. A Marize Castro, o escuro nemoroso da mulher. A Luís Henrique Pellanda, esse colorista urbano com olhos na natureza, devo a perspectiva de uma cidade que não esconde seus musaranhos e guapecas.

Devo a esses e outros tigres da língua sentidos e sons que nunca antes havia experimentado, ou pelo menos nunca saboreado com tanto gosto.  Sentidos e sons de palavras que se deixam tocar em sua polpa e superfície no momento da leitura, que é o momento de um portal.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas