Diário do desamparo [Madô Martins]

Posted on 02/06/2017

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Repare bem. Não é só o tempo que anda estranho, a mídia que se fez tirana, a falta de esperança. As pessoas refletem tudo isso, como espelhos do caos. Amores desmoronam, planos são adiados, a alegria rareia e já não se joga conversa fora, com tanta pressão. Somos sobreviventes, famintos de dias melhores, quixotes combatendo moinhos.

Borboletas e poetas refugiam-se na beleza das flores, nos sabores adocicados, no ar fresco das manhãs. À noite, desaparecem discretamente. Mas pessoas comuns estão sempre à mercê dos fantasmas, que se divertem agitando as bandeiras do desemprego, das dívidas, da fome, da solidão, diante de olhos arregalados de pavor.

O futuro não se mostra, escondido por densa neblina. E não temos o que oferecer aos descendentes: cresce a poluição no ar, na terra, nas águas; minguam as oportunidades de progresso; valores são só uma palavra usada à exaustão; baixam os níveis na educação e na cultura; a verdade tornou-se ainda mais relativa. Nesse vasto deserto, onde encontrar um oásis?

Os templos estão cada vez mais lotados de fieis à espera de um milagre. Aumenta o número de suicídios e crimes de morte. A terceira guerra mundial é uma possibilidade crescente, uma bolha a eclodir a qualquer momento, sujeita à loucura e à ambição dos poderosos. Escreveremos com sangue a próxima bíblia?

A fantasia, o lazer, a fraternidade encolheram-se nos cantos, enquanto a barbárie de muitas faces toma conta dos salões. Não, não é um pesadelo. Não temos nem mesmo o benefício de acordar.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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