Prédio rosa [Elyandria Silva]

Posted on 30/05/2017

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Além de nós, da farmácia que ficava na esquina, da loira bonita da loja da frente que nos sorria com carinho, do moço dos olhos azuis que trazia feijão para minha avó, e de tantos outros moradores, vivia, discretamente, do outro lado da rua, três casas para frente, a senhora dos cabelos negros, aparecia de avental no portão com as mãos na cintura, à espera da filha, já passando da idade de casar, diziam as más línguas.

As duas habitavam a casa bonita, pintada de bege, com portão vermelho, e um hall de entrada cheio de folhagens e vasos de flores, lembrando o pátio da casa de Carlos Gardel.

A mãe e a filha. A filha e a mãe. Enquanto uma estudava a outra cuidava da casa. Uma casa que perdia a desabitação diária quando a filha chegava do estudo. Nessa hora eu deixava o quadrado da vidraça para me enterter só com minha vida de criança. Nosso prédio de dois andares, cor rosa claro, todo descascado. Em dias dominados pelo sol, onde as virtudes eram límpidas como água, meu ímpeto de arrancar as cascas com as mãos aumentava, como se aquele desejo mudo fosse pintar o prédio e deixá-lo novo.

O rosa envelhecia tão rápido quanto nossos pensamentos. Imaginava a pintura rosinha claro dando nova vida ao prédio. Ficava brava por meus pais não se preocuparem tanto quanto eu em pintar onde morávamos. Na rua L. M. os descasques assumiam os segredos encobertos. E lá vinha a moça apressada para encontrar a mãe, o semblante tranquilo, como o de um violinista que estuda a escala de Lá. A alegria sutil da mãe e da filha, que só vivia para os estudos. E a mãe para a filha. Companheiras. Criação bonita. Ela não aprecia fazer as brincadeiras de menina para saber com quantos anos ia se casar. Vovó só dizia, com satisfação, por ser amiga da mãe, que ela era solteira e gostava de estudar. Um aviso silencioso para que seguíssemos seu exemplo.

Era bom passar pela calçada e admirar o portão vermelho. Eu o trocaria pelas nossas escadas. Degraus por flores. Os descascados sobressalentes abrigavam os fios finos da chuva, que desapareciam pelos vincos. Rachaduras de mapas. Desenhos incertos. Monogramas prematuros.

As crianças do moço do feijão um dia cresceram e foram embora. Precisavam estudar longe. Só ficou a mãe das crianças e ele. A antipatia dela traçou o caminho da separação.

O tempo parecia não passar para os moradores da Rua L. M.

Certo dia, quando terminou os estudos, a moça conheceu um rapaz. Foi tudo muito rápido. Ele era japonês. Namoro, noivado, casamento. Surpresa de festa. A mãe havia cumprido sua missão.

O prédio demorou pra ser pintado. Só então, num dia de preces e sorrisos pálidos, ele se vestiu de rosa novamente.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas