Chove, chuva [Marco Antonio Martire]

Posted on 24/05/2017

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Enfim depois do nosso verão caiu a chuva. Veio tímida, mas ainda assim eu me peguei reclamando. Fui mesquinho mesmo, contra o bem-estar do meu cotidiano, que adivinhem: às vezes se volta por obra de ideias tortas contra as chuvas de momentos necessários. Perdoem-me se sou desajeitado ao tratar do assunto cotidiano, mas não me ocorre outra forma de comentar sobre meus desacertos.

É assim: se faz sol, reclamo, se chove, reclamo também.

Sei que na vida preciso encontrar o caminho por onde escoar meu humor de francesinha. Esculachar o valor da estação é um deles. E eu fraco converto-me em super pau-mandado das emoções chulas, imaginando estupidamente que só porque é emoção tem valor.

Tem emoção que não vale uma segunda-feira, tem emoções que não valem um meio lábio. Abraço a chuva sem esquecer que merecemos muito mais que mágoas, somos um tanto melhores que a melancolia barata de um cigarro, somos feitos de matéria mais valiosa que bolores.

Chato talvez seja o adjetivo certo para o estado em que me regozijo de fúria, disposto a delatar toda a crueldade que usam como fantasia por aí. Retaliação. Eu deveria revidar. Ser, por que não?, a resposta das questões tropicais que teimam em negar a chuva e o sol.

É claro que sol demais faz mal e a chuva alaga por aqui. Não são detalhes, mas queimaduras e inundações também podem nos preencher de invenções descartáveis ao coração. Este mundo caminha tão “vou sob a marquise hoje”, a reclamação volta sempre espantada amanhã: sol em brasa, reclamarei de você. Hoje a chuva é refrigeração, poupo o meu mar.

Chove, chuva.

Não faz três anos e me preocupava o nível dos reservatórios de água. Lembro que na ocasião pensei em como seriam duas calçadas de uma cidade como o Rio de Janeiro a sofrer vizinhas com a falta de água. Era essa a história.

Chove, chuva.

Enquanto isso, penso nas palavras da moda. Saudade do tempo em que os verbos eram bons. A gente mudava de casa, conservava a natureza, arrumava um emprego. Hoje o verbo conservar virou apenas metáfora de canalhice e safadeza. Não se engane, os verbos mudar e arrumar também.

Olha que me escondo na chuva.

Mas teria de ser um dilúvio.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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