O móvel do amor [Guilherme Tauil]

Posted on 23/05/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

O leitor que me acompanha já deve estar se cansando de ler sobre Chico Buarque, a quem recorro com frequência. Desculpe, mas vou usá-lo novamente. Se houvesse mais tempo, pensaria em melhor assunto, mas usei muito do meu ócio da semana arrumando discos de vinil, o que é uma praga.

Assim como é impossível cortar queijo sem abocanhar uma a cada duas fatias, os bolachões não se contentam apenas com a limpeza e, viciados, clamam pela agulha. Eu, que não sou nada difícil, fui botando um por um na vitrola. Sou muito a favor da tecnologia, mas, sem saudosismo, escutar vinil é um processo privilegiado. Colocar o lp para rodar é um ritual que demanda disposição, pois parece que é preciso escutar a música de fato, e não deixá-la tocando enquanto se faz outras coisas. É um investimento de tempo.

No fim da letra v, reencontrei o disco Vida, do Chico, e me espantei com um achado na letra de “Eu te amo”, que fez para música de Tom Jobim. A canção é arrebatadora, de um amor rasgado ímpar. O diálogo do casal prestes a se desfazer é visceral – toca o coração, mas também o fígado, o pulmão, o estômago. Eu nunca tinha reparado, porém, que, entre as lamúrias desesperadas, há um armário embutido: “Como, se na desordem do armário embutido/ Meu paletó enlaça o teu vestido/ E o meu sapato ainda pisa no teu”.

O que é que faz um armário no meio de uma canção de amor? Entre imagens tão poderosas e sugestivas, como romper com o mundo, queimar navios e noites eternas, está lá, na bagunça de um coração, o armário embutido. Senti um choque poético. É como encontrar um carburador à venda num sebo. É o monge num show de rock, a senhora religiosa que usa uma blusinha de estampa “sexy” em lantejoulas rosa choque. Uma harmonia desajeitada.

Mas é preciso dar o braço a torcer: não é qualquer um que consegue encaixar móveis em canções de amor sem baixar o nível. Digamos que esse é um armário de mogno, jacarandá, imbuia. Tão bem feito que demorei anos para topar com ele. É certo que há uma justificativa para o armário estar ali, pois despachar as roupas do amor que acabou é uma etapa dolorosa da separação, mas não deixa de soar estranho.

Há compositores que não são bons marceneiros e fazem móveis grosseiros que dispensam ouvidos privilegiados. Você se lembra da Banda Mais Bonita da Cidade, que estourou na internet com “Oração”? É tipo um devaneio sobre o alcance infinito do amor. Papo de juventude ainda iludida que inventa de listar coisas que cabem dentro de um coração: “Cabe o meu amor/ Cabem três vidas inteiras/ Cabe uma penteadeira”.

Uma penteadeira? Dentro do coração? Assim de repente? Esta, você há de concordar, é de madeira compensada, talvez mdf. Um pouco rústica, mas não de um jeito bom de se botar na sala. Sou mais a penteadeira de Chitãozinho e Xororó, em “Fio de cabelo”: “Aquele restinho de perfume dela que ficou no frasco/ Sobre a penteadeira/ Mostrando que o quarto/ Já foi o cenário de um grande amor”. Mais sincero. Acontece com todos.

Mas talvez eu esteja sendo chato e devesse tentar um curso técnico em marcenaria para deixar cada um com o móvel que preferir – aparentemente, tudo cabe num coração que se permite.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

 

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