Por outros motivos [Cássio Zanatta]

Posted on 22/05/2017

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Não para vestir o casaco que eu só usaria em outro hemisfério. Nem porque – ai – acabam de inaugurar mais um shopping. Muito menos porque meia São Paulo vai estar lá. Vou a Campos de Jordão por outros motivos. Os plátanos estão amarelos e forrando as ruas de folhas secas. Porque, quando a tarde cai, nasce o cheiro das lareiras acesas. Porque a boca faz fumaça e o frio, silêncio.

Não porque gosto assim de dropes e pipoca. Vou ao cinema por outros motivos. Não lembrar que atrás daquele beijo apaixonado existe uma câmera, um microfone escondido e um diretor aos gritos é um deles. Sair do cinema se sentindo o galã, imitando os gestos do galã, é outro. Ficar com aquela cena na cabeça e lembrar dela em detalhes 18 anos depois.

Se ainda gostasse de esporte e me preocupasse em cronometrar um tempo cada vez menor. Mas gosto de caminhar por outros motivos. Para que chegar seja o menos importante. Para organizar nas ruas a bagunça do dia. Porque o vento acorda e sempre se pode simpatizar com um cachorro.

Nem é para ser ouvido, e desculpe se incomodo alguém com os murmúrios. Mas é que eu canto pra dentro por outros motivos. Para jamais me esquecer é um deles. Para manter o diálogo com meu pai é outro. Imaginar que aqui dentro exista uma orquestra à espera do meu comando. E porque – já reparei – isso às vezes faz alguém sorrir enquanto espero o sinal abrir.

Longe de mim não querer conversar. Mas não vou falar da filha da tia, das coisas que a filha da tia anda aprontando, de como a filha da tia preocupa a família. Quero conversar por outros motivos. Por que ainda dói tanto. Quando vai acontecer. Como anda rápido, bem que avisaram. E que haja três minutos de silêncio entre os diálogos.

Não para exibir enoconhecimentos. Não para impressionar quem ainda se impressiona com isso. Quero beber vinho por outros motivos. Para que a vergonha seja menor. Diminuir consideravelmente o problema. Para ver a cor na taça e sentir o paraíso na boca, o perfume no nariz e a quentura na bochecha.

Pode ser que seja impaciência com os ritos. Mas prefiro a igreja vazia por outros motivos. Porque, no silêncio, parece que Deus ouve melhor a gente. E porque a pessoa que se ajoelha de olhos fechados de desespero na igreja deserta, em plena terça-feira à tarde, parece ter mais fé do que a que vai todo domingo.

Se ainda deposito no país a esperança de que seja uma grande potência?  Acho que não; passei da idade. Prefiro ser otimista por outros motivos. Que volte aquele jeito que só este país tinha no mundo. Um jeito simples, bom, ingênuo até, meio crianção.

Claro que me toca a injustiça. Que me irrita como ainda não resolvemos as questões. Que me remói o tanto que eu podia ajudar mais. Mas quero ranger os dentes por outros motivos.

Enfim, não é porque eu não esteja feliz. Estou: durmo bem, acordo em paz, sou grato. Mas continuo na busca. Por outros motivos.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas