Frases curtas, ideias simples [Raul Drewnick]

Posted on 21/05/2017

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Uma borboleta é uma presa tão fácil para os maus poetas.  Nós deveríamos envergonhar-nos.

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Não era um poeta cabeça de vento como os outros. Tinha emprego na bolsa e terras no Parnaso.

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O que a vida merece mesmo de nós é ou o sarcasmo ou a chacota. E, no entanto, nós lhe oferecemos poesia.

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As maneiras de enaltecer o amor são tantas quantos os modos de maldizê-lo.

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Estamos tão escaldados com falsificações que, se uma estrela nos cair no quintal, a primeira coisa que faremos será cheirá-la.

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A pieguice surge quando a tristeza escolhe para si as metáforas mais cafonas.

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Uma flor faz mais sentido quando interrogada pelo vento.

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Um haicai pesa menos que o sonho de um morto.

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E quem defende os interesses das categorias gramaticais?

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Terminado o poema, o concretista o apalpa: lindo.

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Um haicai é uma perfeição instantânea, um milagre da concisão.

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Era um daqueles poetas românticos que apanhavam no próprio jardim as flores que punham na lapela.

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Vasculhou a cidade e não encontrou onde tirar xérox de sua querida cornucópia.

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Fazer poesia pode dar, a quem a faz, certa sensação de importância, embora ninguém mais note.

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Provérbios costumam ser tão verossímeis que se isentam de apresentar seu certificado no departamento da verdade.

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Uma das coisas que envelhecem mais rapidamente são as reformas ortográficas.

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Se valesses alguma coisa, não achas que alguém já teria dito?

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Na sessão, um espírito o chamou de tu, e ele pensou estar falando com Fernando Pessoa.

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Saibam os leitores que não preciso fazer nenhum esforço para soar triste. Quem me deu este papel na peça sabia o que estava fazendo.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

 

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Posted in: Crônicas