Diário do último neon [Mariana Ianelli]

Posted on 20/05/2017

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Primeiro dia

Hoje mudamos de casa e já começamos a explorar o território. Somos cento e cinquenta. É preciso cuidado para não se afastar do grupo, pois onde viemos parar está cheio de peixes bem maiores que nós. Peixe dourado, peixe bandeira, peixe cobra. No meio deles, somos minúsculos. Só unidos somos fortes. Unidos formamos uma cortina de luz. Unidos somos tão grandes quanto os grandes.

Segundo dia

Alguma coisa aconteceu durante a noite. Parece que já não somos cento e cinquenta. Talvez seja só uma impressão. Talvez uma ilusão causada pelas novas águas. Talvez essa casa ainda desconhecida nos faça encolher de medo. Melhor esperar pelo dia de amanhã.

Terceiro dia

O dia começou aflito. Estamos todos muito agitados. Não é uma ilusão, agora temos certeza: muitos de nós estão faltando. Estamos desaparecendo. Esta casa é perigosa. Tem um jardim exuberante, mas sabe lá quantas armadilhas se guardam atrás daquelas folhas que estão sempre dançando. Sabe lá o que acontece durante a noite.

Quarto dia

Somos agora menos de cem. Nunca levamos tão a sério nossa união. No escuro brilha o nosso rastro luminoso. Não podemos evitar o nosso brilho nem podemos chegar ao dia seguinte sem antes atravessar a noite. Se alguém de fora dessa casa nos vê, será que enxerga também a nossa angústia?

Quinto dia

Nossa cortina de luz é um fiapo. Quantos somos? Cinquenta, se muito. Ocupamos pouco espaço na casa, mas juntos ainda nos sentimos fortes. Mais fortes que medrosos. A noite virá e nós estaremos dentro dela. Atentos. Brilhando de cá para lá.

Sexto dia

Logo de manhã contamos: doze. Exatamente doze. O que mais temos agora é curiosidade. Cada um se aventura pela casa como quer, por diferentes recantos. De qualquer jeito, continuamos unidos. Para onde foram os outros, iremos nós.

Sétimo dia

Bem cedo comecei a procurar. Procurei, procurei. Não vi nenhum outro neon além de mim. Que sensação estranha. Que casa imensa. O dia imenso também. Um dia todo meu. Vou nadar entre as folhas dançantes. Vou lá ver de perto o peixe dourado, o peixe bandeira, o peixe cobra. Vou descobrir finalmente onde se esconde o segredo da última noite.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas