Cacos [Madô Martins]

Posted on 19/05/2017

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Sabe quando você esbarra no móvel e a louça preferida vai ao chão, sem dar tempo de impedir o desastre? Com lamento, varre os cacos e os descarta, sabendo que nada será como antes. Durante dias, a ausência volta a doer, cada vez que você passa pelo lugar onde a peça ficava. E qualquer acaso faz lembrá-la: um anúncio, uma cor, um som… Quando menos espera, um pequeno caco esquecido numa fresta fere a mão ou o pé, causando aquele corte fininho que custa a cicatrizar. Bem que Neruda dizia: é tão breve o amor e tão longo o esquecimento. Assim foi. Procuro nas canções, nos poemas, e não encontro resposta para o que houve. E ainda tem esse ventinho frio de outono, encolhendo ainda mais o coração. Rezo, telefono para as amigas, aviso que não estou bem, uma fraqueza, um vazio que nada preenche, uma falta de ar, de alegria. Durmo mal, acordo várias vezes, mas esta noite, senti algo mais. Uma angústia que não era minha, um desassossego. É grande a tentação de voltar atrás, emendar mais uma vez o vaso já tão cheio de rachaduras. Mas, para tudo há um limite, um ponto de onde não há retorno, e penso que o atingimos. Dissemos palavras cruéis, agimos à revelia da razão, emergimos toda mágoa, todo medo, exilando a esperança. Depois, nos envergonhamos, nos arrependemos, tarde demais, cacos demais. Evitamos lugares e horários onde sabemos que vamos nos encontrar. Loto a agenda de ocupações, para distrair o pensamento que insiste em ficar onde já não está. E o movimento desse pêndulo se reflete no resto. Quero mudar, não quero mudar. De casa, de jeito. Ao mesmo tempo que procuro outro apartamento, pinto e decoro este aqui. Ao mesmo tempo que tenho espaço para realizar todas as vontades, não tenho vontades. Escrevo estas bobagens para aliviar o peito, que doi cada vez que respiro. Observo os gatos da vizinhança, mas sem o antigo prazer. O telhado onde ficavam está em reforma, e eles estranham o entorno, como eu. O que costuma miar emite um som tristonho, talvez chamando respostas, como eu. Tudo parece ter saído do prumo, em especial, a bússola que me apontava o futuro. A vida continua com suas ironias e piadas de mau gosto. Poderia rir, poderia chorar, mas estou assim, congelada, em estado de choque diante do uso excessivo de memória, como diz o celular, percorrendo no escuro um caminho onde ainda pode haver vidro partido.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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