Questão cavalar [Daniel Cariello]

Posted on 18/05/2017

1



– Bonjour.
– Bonjour. O que vai querer hoje?
– Trezentos gramas de carne moída.
– Très bien. Du steak haché. De boi ou de cavalo?
– Comment?
– Perguntei se o senhor quer carne de boi ou de cavalo.
– Como assim, de cavalo?
– Cavalo. Aquele animal que relincha e mostra os dentes. Muito visto nos filmes de bangue-bangue americanos, quase sempre com um índio em cima.
– Que por sinal acaba sempre morrendo.
– O cavalo?
– O índio, no caso. Ainda mais se o John Wayne estiver no filme.
– Pois bem. O senhor conhece o animal.
– Que animal, o John Wayne?
– Não, céus, o cavalo!
– Pessoalmente, de frequentar a casa, telefonar, dividir uma cerveja, não. Mas sei do que você está falando.
– Então, qual carne moída você quer?
– Como vocês conseguem fazer isso?
– Não é difícil. Tem uma máquina bem ali que mói.
– Não é disso que eu falo.
– E do que é?
– Como vocês têm coragem de comer carne de cavalo?
– Ué. Os chineses não comem cachorro?
– Nesse caso é compreensível. Eles têm os olhos fechados. Devem achar que é filé mignon.
– E a Lapônia? Um amigo meu mora lá e me contou que eles adoram fígado de rena.
– Deve ser por isso que tantas crianças não recebem presentes de Natal, com tamanho desfalque na equipe do bom velhinho.
– E ainda tem a Venezuela, onde eles se estapeiam por um prato cheio de tarântulas.
– E palitam os dentes com as pernas delas depois da refeição?
– Tudo isso pra você ver que é normal a gente comer carne de cavalo. Uma questão puramente cultural.
– Não me convenceu.
– Mas por quê?
– Porque não dá pra comer. Simples assim.
– Já provou?
– Tá doido?
– Devia. Você vai adorar.
– Eu não. Vai que acordo trotando.
– Você é quem sabe.
– Bom, obrigado assim mesmo. Vou pra casa me virar com os restos do ensopado de coração de galinha de ontem.
– Coração de galinha?
– É.
– Eca.
– Qual o problema?
– Eca, eca!
– Não, qual o problema? Já provou?

Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

_________

Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

Anúncios
Posted in: Crônicas