Gratidão [Daniel Russell Ribas]

Posted on 15/05/2017

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A rede social voltou com a florzinha da Gratidão. Para aqueles poucos que vivem fora do Facebook, trata-se de um ícone similar a uma margarida de pétalas roxas. Acho bunitim. Ressuscitado para o dia das mães, gerou a típica polêmica de três dias e meio (em que tudo tem uma importância sumária até surgir uma gravação de gatinhos bonitinhos). Desde a banalização do termo a questionamentos quanto ao que há para sermos gratos, afinal. “Gratidão” soou quase como uma provocação. O país está em crise, as pessoas estão sem perspectivas, há doenças e a sensação de que fomos abandonados paira como uma nuvem de poluição separando a cidade dos céus. “Gratidão pelo quê, tonto?”, parece a resposta.

À primeira vista, não há muito para comemorar. Todos nos defrontamos num momento desafiador, tanto num nível externo quanto particular. Da minha parte, além do desemprego, perdi meu pai e tive a oficialização de que minha mãe sofre de Alzheimer. A doença, inclusive, piorou desde o falecimento dele. Foram 50 anos de casados. Ela me pergunta a cada 20 minutos onde está o marido, mas, no fundo, sente a ausência. Isto leva a surtos de pânico mais agressivos e duradouros que os usuais. Lido com isto com sozinho, contando com a pontual ajuda de amigos. “Gratidão pelo quê, tonto?”, óbvio…?

Gratidão, sim. Apesar dos obstáculos e da agonia, sou tremendamente grato. Fui criado com amor. Brega, como a florzinha do Facebook, mas direto. Meus pais, como vários, tiveram muitos defeitos, mas se guiaram por este sentimento. É importante ter esta memória na carne quando a loucura esmurra sua porta durante a madrugada. Sou grato por ter tido a oportunidade de retribuir o que meus pais me deram. Eles se sacrificaram para que eu tivesse a melhor educação. Agora, quase três décadas, comecei a cuidar deles. Com oposição de um lado e a falta de interesse de outro, intensifiquei uma jornada para garantir uma qualidade de vida para eles. Um processo que levará um tempo e de que, infelizmente, um deles não mais participará.

Sou grato por estar estado ao lado de meu pai até quando pude. Fiquei até às 05h30 da manhã com ele; ele morreu 20 minutos depois quando foi transferido para a emergência. Ajudei no que pude, no que sabia. Aprendi novas habilidades. Sou grato por todos os momentos, incluindo os ruins. Talvez por motivos egoístas, até. São meus, ninguém tirará isto de mim. Sou grato pelas histórias, os exemplos, os antiexemplos. Sou grato por tido uma fonte de onde sei que tirarei muitas ferramentas. E pelos faroestes a que assistíamos, um gênero direto na maior lição que aprendi com meu pai: independentemente das circunstâncias, a pessoa é seu caráter. O vaqueiro velho nunca escondeu isso.

Sou grato por ter retomado minha fé e largado vícios. A enfermidade em minha família engatilhou uma caminhada inversa para mim. De modo a tomar as rédeas desta situação, obriguei-me a encarar longamente o espelho. Notei o reflexo distorcido e os efeitos de um tempo em que fugi de tudo, eu incluído. O fracasso pelo medo de fracassar. A ansiedade derramada em copos noite adentro. Os prazos estourados que só restauravam minha certeza de que não servia para nada. Eu me especializei em queimar pontes. Há pessoas que nunca fazem este tipo de autoreflexão. Dói. É constrangedor, na melhor das hipóteses, e assustador entender que errou tanto por um período extenso. Ao mesmo tempo, sacode-se a poeira e renova-se a esperança. O recomeço brilha pela janela, quase me cegando enquanto escrevo este texto. Não vejo uma camada de inversão térmica, mas uma luz forte e quente que abraça o solo em que novas sementes germinam. E me certifico de que a vida segue. As coisas não serão como antes. Serão diferentes. Serão melhores.

Logo, desejo o seguinte. Um combinado para mim e todos nós:

Que recomece. Que haja maturidade para fazer o que é certo. Que haja piedade sobre quem está doente. Que haja força para aguentar uma condição faminta. Que haja justiça no tratamento. Que o fim seja a base da reconstrução. Que a lembrança resista. Que aceitemos a mudança como certeza de que estamos vivos. Que a vida seja a melhor possível em seu novo formato. Que seja bela em seus detalhes. Que seja tudo amor sempre.

Ainda estamos aqui.

Há muito para ser grato.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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