Encontros e desencantos [Rubem Penz]

Posted on 12/05/2017

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O mais bem-acabado exemplo de desencanto aconteceu comigo em tempos pretéritos, nos quais a agência de publicidade onde eu era redator tinha a conta de uma loja de roupas femininas. Ela era especializada naquilo que se costumava chamar de “moda para a jovem senhora” – espaço/tempo depois de ser balzaquiana e antes dos netos. Seu endereço era convenientemente defronte a uma loja de roupas masculinas cujo conceito estava bem audacioso para a época – e olha que não vestia jovens. Separados (unidos?) pelo leito da avenida, ambos estabelecimentos promoviam um namoro comercial maduro.

Neste contexto, criei uma campanha que flertava com a poesia e, em seu bojo, havia um erotismo contido. Eram malas-diretas, anúncios para jornal e spots de rádio. Aliás, escolhemos a dedo o locutor: Luiz Paulo Vasconcellos, um ator e diretor carioca radicado em Porto Alegre. Ele devia estar com quarenta e muitos anos naquele momento, seu timbre grave e o leve chiado de berço soava como um Sean Connery tropical. Ah, meu texto firmou-se muito naquelas cordas vocais! A campanha foi um sucesso. Tanto que… E era aí que eu queria chegar.

Certa tarde, uma contato comercial de veículo em visita, exemplar bem acabado de “jovem senhora”, chamou a mídia da agência para um particular: pela assinatura do anúncio, sabia que aquela campanha havia sido criada ali. Pediu para conhecer o homem que escrevera os versos (pressupôs ser um homem, é claro). Janine desconversou, dissuadiu, mas ela insistiu, persistiu, suplicou. Rendida, a mídia telefonou para a minha mesa e pediu para que eu fosse até a sua sala. Assim, sem dizer nada mais. E eu fui. Claro.

Entre o vão da escada em que eu subiria e a porta da sala de mídia havia uns 15, 18 metros. De um lado, uma loba com seu sorriso de orelha a orelha. Do outro, apareceu um jovenzinho de vinte e poucos, imberbe, miúdo e nada moreno. A cada passo meu, murchavam um pouco seus lábios. Quando disse o meu educado “pois não”, mirava-me o fiel retrato do desencanto. Suas únicas palavras, saídas com um fiapo de voz, foram “ele é tão novinho…”. Janine, sorrindo como quem diz “eu avisei”, nos apresentou, falou que ela havia gostado da campanha e pedido para me conhecer. Eu agradeci comovido (constrangido?) enquanto ela se recuperava do choque.

Não, não foi a única vez que desencantei ou me vi desencantado nessa vida. Sequer foi a primeira. Mas foi a mais teatral de todas. Quase como que dirigida pelo grande Luiz Paulo com sua voz de veludo.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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