Joue-nous Raoul! [Daniel Cariello]

Posted on 11/05/2017

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Tem coisas que não dá pra traduzir. Por melhor que você chegue a falar uma segunda língua, existem expressões que necessitariam de tanto tempo para serem explicadas que é melhor nem tentar.

Isso não sai da minha cabeça desde que estava em um festival em Paris e, no meio da muvuca, alguém deu um grito. Uma espécie de senha-para-se-reconhecer-brasileiro-em-show-de-rock-em-qualquer-parte-do-mundo. O “toca Raul!” saiu esganiçado, quase desafinado, mas era um “toca Raul!” legítimo, bem audível.

Como explicar para um francês todo o significado socioanárquico-místico-irônico-contracultural da expressão?

– Não dá pra explicar.
– Tenta.
– O Raul Seixas é um músico baiano, um pioneiro do rock brasileiro.
– Então as pessoas querem escutar as músicas dele no show?
– Não é isso.
– E por que pedem para tocá-las?
– Elas não estão pedindo para tocá-las. Só estão gritando “toca Raul!”.
– Não entendo.
– Eu disse que era complicado.
– Continua.
– O Raul Seixas fez muito sucesso nos anos 70, principalmente pelas músicas em parceria com o Paulo Coelho.
– Paulo Coelho, o bruxo adorado aqui na França?
– O próprio.
– Já até imagino. Eram músicas de meditação, de elevação espiritual, né?
– Na verdade, muitas eram de adoração ao “coisa ruim”.
– Coisa ruim?
– O canhestro.
– Hein?
– O príncipe das trevas.
– Paulo Coelho adorando o capeta? Agora embolou tudo.
– Avisei…
– Deixa eu tentar compreender: as pessoas pedem músicas do Raul Seixas, mas não querem escutá-las. E muitas dessas músicas foram feitas juntas com o diabo, mas adoravam o Paulo Coelho.
– Na verdade, é o contrário.
– É confuso.
– Ele também era confuso. Tanto que ficou conhecido como maluco beleza.
– Era doido?
– Era. Quer dizer, não era. Bom, talvez fosse. Sei lá. E o mais curioso é que existe até hoje uma legião de fanáticos que se vestem exatamente como ele.
– Então são esses os malucos beleza que gritam “toca Raul!”?
– Nem sempre.
– Eu acho que nunca vou entender o que isso significa.
– É complicado mesmo. “Toca Raul!” é uma expressão muito brasileira. Tão brasileira quanto a Gisele Bündchen.
– Gisele Bündchen? Ela não é alemã?
– Ah, não enche.

Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, lançado em 2013 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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