Parar o quê [Marco Antonio Martire]

Posted on 10/05/2017

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— Eu não sei parar.

— Simplesmente pare.

— Não é tão simples.

— Não é fácil, mas é simples, basta parar.

— Tenho medo.

— Medo do quê?

— O que faço quando parar?

— Você dá um jeito.

— Minha vida é um tédio.

— O tédio não é invencível.

— Não sei fazer outra coisa.

— Terá que aprender.

— Aprender como?

— Não consegue?

— Desculpe a minha burrice…

— Burrice é uma coisa que dá e passa.

— Não tenho como, parar é impossível.

— Muita gente já parou.

— Mas não eram fracos como eu.

— Eram fracos igualzinho.

— Tem que ser muito forte para parar.

— É preciso querer muito.

— Eu quero muito.

— Então você vai parar.

— Quando?

— Cedo ou tarde você vai parar.

— Tem que ser hoje.

— Que seja hoje.

— Não, talvez amanhã.

— Amanhã então.

— Tá vendo? Não rola.

— Mas se já marcou a data…

— Amanhã, né? Mas não vai dar…

— Amanhã você vai saber.

— Amanhã está muito longe.

— Amanhã está no lugar certo, apenas espere.

— Esperar é muito difícil.

— Muito difícil é parar, até que esperar é fácil.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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