Os demônios poliglotas [Guilherme Tauil]

Posted on 09/05/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Não sou um bom leitor da Bíblia, mas tenho curiosidade sobre algumas questões metafísicas. Como não sei o e-mail do papa, resolvi escrever a crônica sobre uma inquietação celestial – ou melhor, infernal.

Já reparou como os demônios, seres ancestrais, só se comunicam em línguas igualmente antigas? São retratados como falantes de aramaico, letão, hebraico, latim, fenício. Não existe demônio que se comunique em língua moderna, como espanhol, italiano, alemão.

O que faz bastante sentido. Você acha mesmo que a encarnação do mal vai proferir seus discursos em algum idioma que o Joel Santana domine? Nem pensar. Se ensina nessas escolinhas de esquina, o demônio dispensa. É preciso ser arcaico, ter muitas consoantes e estar escrito em algum pergaminho com cheiro de enxofre. Precisa soar grego embora não tenha parentesco com o grego de verdade.

Mesmo assim, o que me espanta é, num mundo cada vez mais americano, não haver notícia de demônio que fale inglês. Como fazem para se comunicar globalmente? Sem inglês, hoje, não dá. Existe curso rápido no inferno, desses que prometem fazer do aluno um Shakespeare em dois meses? Usam tradutores automáticos? Será que se preparam para algum exame de proficiência?

Eu já quis aprender húngaro, mas não consegui formar turma. Com toda a razão, as pessoas se amedrontaram. De certa forma, me sinto aliviado por não ter começado as aulas, já que, quando morresse, fatalmente seria convocado para as fileiras demoníacas: “Senhor Guilherme, sei que você foi até bonzinho em vida, mas estamos precisando de almas que falem húngaro, o departamento de demônios poliglotas está em baixa. Você se interessa em assumir o cargo?”

Recusaria educadamente, dizendo que não mexo com essas coisas, mas depois de ouvir as condições de trabalho e a alta remuneração, acabaria aceitando e acho que até faria um bom trabalho. Não perderia tempo com gente como a gente. Ia me empenhar em atazanar peixes grandes. Geraldo Alckmin nunca mais iria dormir. O pastor Malafaia precisaria de todos os seus exorcistas para dar conta de mim.

Mas acho que também teria uns acessos de bondade e, vez ou outra, ia montar barraca na alma de alguns cantores impertinentes, já que as hordas infernais não são nada perto da maldade de suas composições chicléticas. Você prefere ser assombrado por uma alma penada ou passar a semana com a uma canção do Pablo na cabeça? Seja sincero. O sinal mais claro do apocalipse será quando os próprios fantasmas passarem a assobiar esses refrões para nós, mais que nunca pobres mortais.

Quando é que a legião se atualiza, alistando em suas fileiras espíritos malignos que falam línguas mais fáceis para nós, do lado de cá do oceano? Será que já existe algum em ação que fosse leitor de O senhor dos anéis e tenha aprendido élfico? E os fãs de Star Wars? Já foram cotados para a profissão por conta dos idiomas alienígenas?

Não sei como o pessoal administra isso. Por outro lado, aprender línguas exóticas está cada vez mais simples. Com tantos métodos disponíveis online, temo que das próximas gerações sairão ótimos demônios poliglotas, fluentes em vários idiomas obscuros. Tenho amigos que estudam iídiche, imagine. Muitos que falam russo. Outros tantos se dedicam ao mandarim e um, apenas um, sabe islandês.

Vocês morrendo antes e aderindo ao ofício demoníaco, meus amigos, por favor, lembrem que ainda pretendo insistir nas aulas de húngaro. Não venham me importunar. A não ser que seja para me ensinar essas línguas. Aí até passo um cafezinho e rezo a novena – em armênio, quem sabe.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas