Eu não estou bem [Cássio Zanatta]

Posted on 08/05/2017

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Foi a topada no pé da cama. A picada que não foi culpa do marimbondo. O quarto gim sem gelo. O espirro que chegou na frente do lenço. Essa farpa que antes doesse no pé. A cera quente que pingou no braço. O excesso de velas sobre o bolo.

Foi a mudança de estação. Foi Saturno na casa de Mercúrio. A briga de Libra com a ascendência em Leão. O pólen no ar e a poça no chão. A pontada de lembrar o que se recusa a virar esquecimento. A dieta da lua no céu sem lua. A overdose de Nina Simone. O remorso de não ir faz tempo a São José. Certas vozes que faltaram no parabéns.

É o coração na batucada improvisada. A perna parecendo querer sair da perna. A tontura que me transforma num João marcando Garrincha. O olho direito que quer ver o acontecido à esquerda e o esquerdo, o que andam aprontando à direita. Reler Manuel Bandeira e seus poderes.

Foi algo que eu comi. Foi algo que eu não fiz. Esse olhar assustado na identidade velha. Essa imagem que o espelho quer fazer crer. Ou um esculacho quando pensei estar abafando. O assobio no velório. O bocejo que arruinou a palestra.

Foi ela. Sem que ela faça a menor ideia.

Vai passar feito lembrança, ou estou enganado como as previsões dos catedráticos? Rápido como férias, ou demorar feito fila? Vai passar de uma vez, ou sumir aos poucos como ocaso de outono? Mais para estrela cadente, ou espera de dentista? Será de chorar de rir, ou da outra razão?

Pode ter sido a música surpresa no rádio do vizinho. A bala inesperada de boa no táxi. Esse cheiro ruim de jatobá aberto que veio de uma coisa aberta aqui dentro, já que em volta não há mais jatobás. O medo de encontrar, maior que a vontade de encontrar.

Ou talvez seja esse pasmo, essa dúvida, o tropeço, o cansaço.

Não há gurus disponíveis. Os psicólogos estão de férias. Os livros de autoajuda, recuso-me a ler – agora, bem feito. O que meus pais me diriam nessa hora? Os amigos, por que não saem das reuniões? Estou escondido no banheiro para fugir da chamada oral.

Não é que eu não esteja bem, talvez só um pouco espantado. Tudo isso?  Mesmo? Como foi acontecer?

Já senti isso antes: esse chão faltando, o desassossego, para não dizer medo mesmo. Mas faz muito tempo.

55 é a adolescência da velhice.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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